Inês Rodrigues Peixoto, tem 40 anos de idade, é enfermeira há 17 anos e atua como conselheira da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo. Nasceu e cresceu em Almada, em 27/10/83. Fez Ginástica Rítmica de Grupo dos cinco aos 20 anos e representou Portugal no estrangeiro. É formada em Medicina Tradicional Chinesa, pela Universidade de Medicina Chinesa pedro Choy. Para perceber as dificuldades pelas quais passa a comunidade portuguesa no Luxemburgo, conversamos com esta conselheira, que se diz empenhada em “fazer propostas e recomendações para melhorar a vida da comunidade portuguesa no Luxemburgo”.
Qual é o papel de um membro do CCP no Luxemburgo?
O principal objectivo nos primeiros seis meses após a eleição foi aprofundar o conhecimento em relação à comunidade portuguesa no Luxemburgo, acompanhar e conhecer as diversas associações, entidades, ou seja, uma aproximação real da comunidade. O papel principal do conselheiro é fazer a “ponte” entre o governo e a comunidade para transmitir e partilhar informações em ambos os sentidos. Tive oportunidade de participar em reuniões da OGBL, o maior sindicato do Luxemburgo, com o intuído de conhecer as problemáticas a nível profissional e as situações complicadas como a falência de empresas no âmbito da construção que empregavam portugueses. Como conselheira, tenho também o papel de orientar os portugueses em situações que estejam na minha área de competência. Já tive a oportunidade de assistir à entrega de diplomas de alunos de Língua portuguesa em Esch sur Alzette, promovido pelo Instituto Camões. Participei em várias reuniões associativas como “união das associações” e a associação “Casa”. Esta aproximação da comunidade é importante para conhecer a sua essência. Haverá em outubro um plenário onde irei partilhar à respetivas identidades competentes algumas situações a melhorar.
Como avalia a comunidade portuguesa no Luxemburgo?
Acho que o Luxemburgo tem uma comunidade portuguesa muito diversificada, onde estão representadas todas classes socais. Na nossa comunidade, a nível profissional, predominam as profissões sem formação académica, principalmente limpeza e construção civil. Infelizmente, temos muita gente que vive em situações precárias, de acordo com os dados do governo do Luxemburgo 17% dos portugueses vivem em situações de precariedade. Somos na generalidade uma comunidade bastante trabalhadora e dedicada, mas, para a maioria, o melhor momento do ano são os “congés colectif”, onde uma grande parte de portugueses regressa a Portugal para estar com familiares ou na sua terra natal. Na minha opinião é uma comunidade bastante rica a nível cultural, solidária e realço a palavra solidariedade na comunidade portuguesa porque é genuína e ampla. Dentro da nossa comunidade temos artistas, empresários, professores, profissionais de saúde, profissionais da área social, funcionários do parlamento europeu e mesmo na área da política no Luxemburgo. “A 1 de Janeiro de 2024 a população do Luxemburgo totalizava 672.050 pessoas, das quais 90.727 (13,5%) de nacionalidade portuguesa, indicam os dados demográficos mais recentes revelados esta quinta-feira pelo Instituto de Estatística do Luxemburgo (Statec)”.
Que desafios existem para a diáspora lusa no Luxemburgo?
Nós somos uma comunidade que se adapta facilmente às novas realidades e estilos de vida e a existem várias associações portuguesas no país, o que ajuda na adaptação ao mesmo. Felizmente, o Luxemburgo tem uma grande abertura e tolerância em relação às diferentes culturas e promove evento onde convidam associações portuguesas a participar. As associações por si têm um papel de integração dos portugueses no Luxemburgo. Há um problema complicado a nível europeu e muito visível no Luxemburgo, que é o preço da habitação, neste momento temos portugueses em dificuldades porque a taxa do empréstimo aumentou bastante. Algumas pessoas estão a passar por grandes dificuldades, descolando-se a associações a pedir bens alimentares para não perderem o teto onde vivem. Esperemos que as taxas de juro baixem. Outro desafio é a língua oficial, o luxemburguês, de aprendizagem difícil em idade adulta, depois há o factor que podem sempre optar por uma segunda língua, como o francês ou inglês e, muitas vezes, o Português. Há um pequeno número de portugueses que vivem no Luxemburgo durante 20/30 ou 40 anos e só fala a língua portuguesa. O que pode ser um obstáculo grande em caso de saúde/doença (e de não haver ninguém para a tradução, situação rara), em caso de tentativa de mudança de trabalho, ou mesmo em caso de desemprego, na procura de um novo trabalho. E o maio desafio é o clima, a chuva quase diária, e a falta dos campos e da praia portuguesa.
Como e quando começou o seu envolvimento no CCP?
Posso dizer que não foi programado. Eu trabalho na área da saúde e muitas pessoas não sabiam que para ter um médico de família (nome em Portugal), ou seja, “medecin generalista”, só precisavam de marcar a consulta e poderiam escolher o médico, o local, até poderiam marcar a consulta por telemóvel ou computador. O sistema de saúde é diferente do de Portugal, onde nos é atribuído um médico de família. E como esta situação, comecei a aperceber de várias faltas de informação na nossa comunidade, como o registo da carta de condução portuguesa, entre outras coisas. Havia muitas lacunas de informação na comunidade lusófona. Na altura das eleições autárquicas no Luxemburgo, formei um grupo de candidatos lusófonos de um determinado partido luxemburguês e deu uma enorme força a esses candidatos, que muitas vezes se sentiam excluídos, formando uma rede de apoio entre eles. Depois, a Nathalie de Oliveira, na altura Deputada eleita pelas Comunidades pelo círculo europeu, disse-me que eu seria uma boa Conselheira da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo e, quando houve a abertura de candidatura, quis formar uma lista multipartidária e que se representa a comunidade no Luxemburgo.
