A Edição 10 da Diáspora Lusa Magazine chega ao Luxemburgo com entrevista exclusiva ao Embaixador de Portugal
A conversa foi conduzida por Igor Lopes, jornalista e editor internacional da Diáspora Lusa, e permitiu um olhar aprofundado sobre o papel da comunidade portuguesa naquele país, os desafios da diplomacia bilateral e o impacto da diáspora nas relações entre Portugal e o Luxemburgo.
“Os portugueses contribuíram e contribuem hoje ainda muito ativamente para o desenvolvimento económico (e não só) do grão-ducado”
Em entrevista à revista “Diáspora Lusa”, o embaixador de Portugal no Luxemburgo, Pedro Sousa e Abreu, avaliou que a comunidade portuguesa está dispersa por todo o território luxemburguês, mas com maior concentração demográfica no Sul do país. Uma dinâmica que faz com que a presença portuguesa seja, segundo este responsável, visível em múltiplas expressões no país, desde logo a “relativa facilidade em escutar-se a língua portuguesa em todo o espaço público”.
Este diplomata considera ainda que o relacionamento mútuo entre Portugal e o Luxemburgo “aprofunda-se, diversifica-se, enriquece-se de ano para ano, nomeadamente com o crescimento das exportações portuguesas para o Luxemburgo e com o investimento luxemburguês em Portugal”.
Para conhecer melhor o trabalho desta embaixada na valorização da comunidade portuguesa e na aproximação entre os dois países, conversamos com Pedro Sousa e Abreu sobre diversos temas. Acompanhe a entrevista abaixo:
Como avalia a comunidade portuguesa residente no Luxemburgo?
A comunidade portuguesa no Luxemburgo está solidamente enraizada na sociedade luxemburguesa, havendo registo de migração regular, com maior expressão, desde os anos sessenta do século passado. De início, os nossos concidadãos começaram por desempenhar tarefas que moldaram a infraestrutura do país, tratando-se, sobretudo, de migrantes homens aos quais se juntaram, num momento posterior, as famílias. Homens e mulheres, com o tempo, alargaram as áreas de actividade desempenhando um papel importante nos sectores da restauração, comércio retalhista, hotelaria e serviços públicos (administração central e local, polícia, assistência social). Hoje em dia, encontramos portugueses e luso-descendentes integrados nos sectores referidos mas também, mercê de níveis de habilitações superiores, em áreas outras, como – para nomear apenas as mais importantes – consultorias diversas (jurídica, financeira, informática, gestão, etc.), saúde (médicos, enfermeiros, técnicos), artes, ensino, e ainda profissões liberais (advogados, arquitectos, empresários, etc.), para além de cargos no funcionalismo público (diplomacia, forças de segurança, generalidade dos ministérios luxemburgueses). Em suma, a comunidade portuguesa desempenhou, e continua a desempenhar um papel estruturante na sociedade luxemburguesa, agora mais habilitada e mais interventiva socialmente, acrescentando valor à economia do país, papel esse reconhecido pelas autoridades do grão-ducado, e que tenderá a aprofundar-se, sendo disso exemplos cimeiros os dois deputados luso-descendentes e ainda os diversos presidentes de câmara e conselheiros municipais.
Como está a estruturada essa mesma comunidade?
Para além dos elementos socioprofissionais já referidos, será de acrescentar que a comunidade portuguesa está dispersa por todo o território, mas com maior concentração demográfica no Sul do país. Haverá ainda que assinalar a dimensão transfronteiriça desta comunidade, com um número considerável de cidadãos residindo nos países limítrofes (Alemanha, Bélgica e França) e trabalhando no Luxemburgo.
Que tipo de relações diplomáticas e comerciais existem entre Portugal e Luxemburgo, atualmente?
As relações diplomáticas entre Portugal e o Luxemburgo são antigas, tendo sido estabelecidas em meados do séc. XIX, e pautaram-se sempre por uma relação de excelência, bem patente, a título de meros exemplos, através dos matrimónios entre membros da Casa Real portuguesa e Grã-ducal luxemburguesa, do auxílio português aos exilados luxemburgueses na Segunda Guerra Mundial ou à relação de amizade entre os actuais Chefes de Estado português e luxemburguês. Para além disso, e independentemente de diferentes orientações políticas, tem havido desde sempre um relacionamento muito próximo entre os governos de ambos os países, traduzido em colaboração mútua no sentido de aprofundamento dos laços de todo o tipo entre os dois países, e de coordenação estreita no quadro das políticas da União Europeia. No que respeita ao relacionamento económico, tem ele também sido reflexo da grande proximidade política, social e, mesmo, afectiva entre Portugal e o Luxemburgo. As nossas trocas comerciais com o grão-ducado e deste com Portugal têm vindo a crescer sustentadamente ao longo dos anos e encontram-se, neste momento, em fase ascendente. O mesmo se passa com o investimento português no Luxemburgo e, sobretudo, com o grande volume de investimentos do grão-ducado no nosso país.
Quais os símbolos e aspetos da portugalidade mais evidentes no Luxemburgo?
A presença portuguesa é visível em múltiplas expressões, desde logo a relativa facilidade em escutar-se a língua portuguesa em todo o espaço público, ocorrência facilmente explicada pela representatividade numérica da comunidade (cerca de 15% do total de cidadãos residentes no grão-ducado). Destacam-se ainda as manifestações culturais realizadas pelas associações, as celebrações de feriados oficiais e religiosos e também os inúmeros locais de encontro e de convívio.
Que tipo de trabalho desempenham as associações portuguesas existentes no país?
Funcionam como entidades promotoras da língua e cultura portuguesas (algumas delas contando com apoio financeiro do Ministério dos Negócios Estrangeiros) através dos eventos que organizam (participação em desfiles etnográficos, espectáculos de música tradicional portuguesa, exibição de danças e cantares tradicionais, eventos gastronómicos, etc.). Uma outra função, não menos importante, é a de apoio social a cidadãos mais carenciados, no Luxemburgo e em Portugal.
Há uma lista dessas associações?
Estão identificadas cerca de meia centena de associações.
Como está a vitalidade do ensino da língua portuguesa no país?
O ensino do português no Luxemburgo encontra-se numa fase de estabilidade em progressão. Existem e estão em funções mais de três dezenas de docentes distribuídos por escolas em todo o território luxemburguês, a atuar nos diferentes tipos de ensino. É de salientar, de resto, que já este ano lectivo será posta em prática a modalidade de cursos de português online, de modo a ultrapassar alguma dificuldade de acesso a cursos de português sentida por alunos que não habitam perto de escolas em que aqueles são ministrados ou cujos horários são incompatíveis. Esta modalidade abrangerá todo o território do Benelux. A colaboração da Embaixada e da Coordenação do Ensino do Português com o Ministério da Educação e as suas diferentes estruturas de gestão escolar é excelente e o relacionamento com as diversas escolas que acolhem cursos de língua portuguesa é, geralmente, muito bom, tendo sido possível ultrapassar ocasionais dificuldades que, por vezes, raramente, surgem. Mas, é devido um reconhecimento às diferentes autoridades escolares luxemburguesas, nota que se aproveita para aqui deixar registada. Há, no entanto, um aspecto que merece atenção: se não foi ainda impossível acorrer a todas as necessidades e número de alunos que desejam aprender e melhorar os conhecimentos em português – número que cresce todos os anos – deparamo-nos já hoje com alguma dificuldade em perspetivar a resposta a todas as solicitações e à criação de cursos novos, em virtude, como referi, do aumento do número de alunos, por falta de docentes, ou porque os existentes não podem acorrer a todas as manifestações de interesse de escolas luxemburguesas, de alunos e de pais.
Acredita que os portugueses emigrados no Luxemburgo têm o desejo de regressar a Portugal? Como avalia o trabalho do governo de Portugal que, através do Programa Regressar, auxilia nesse regresso ao país?
O Consulado-Geral é habitualmente contactado por cidadãos solicitando informação sobre o Programa Regressar. Mais recentemente, acolhemos uma equipa liderada pelo Director Executivo deste programa. O Luxemburgo figura na lista dos dez países com mais emigrantes tendo beneficiado do Programa Regressar.
Qual o estado atual do fluxo migratório entre Portugal e Luxemburgo?
Actualmente, a vinda de portugueses para o Luxemburgo não ultrapassa o meio milhar de emigrantes e expatriados (dados de 2023), tendo vindo a descer paulatinamente na última década.
Como estão organizados e distribuídos, em termos económicos e de ações comerciais, os empresários portugueses no país?
O empresariado português ou de origem portuguesa está distribuído por todo o território do grão-ducado, em todas as regiões e aglomerados populacionais do país. E está presente em todas as áreas económicas: da construção civil à distribuição alimentar, da hotelaria aos serviços, da indústria ligeira e pesada à – embora em muito menor escala – agricultura. Em todos os sectores da economia há empresas luxemburguesas, propriedade de portugueses, de luso-luxemburgueses, ou sucursais de empresas em Portugal. Foi criado, há cerca de dois anos, o Escala Business Club, que reúne cerca de 70 empresários portugueses e luso-luxemburgueses, e que, dentro em breve, estará também aberto a empresários luxemburgueses (e outros). Trata-se de uma estrutura de negócios em rede, destinada a facilitar contactos, contratos, investimentos em ambos os mercados, luxemburguês e português. Como corolário das nossas iniciativas de promoção da economia e das empresas portuguesas no mercado luxemburguês, teremos este ano a realização do IIº Fórum Empresarial Portugal-Luxemburgo, em novembro próximo, na sequência do Iº, realizado em meados de 2022 em Portugal. É a maior iniciativa este ano realizada fora de Portugal pela AICEP (e aqui pela Câmara de Comércio do Luxemburgo) e envolve 50 empresas portuguesas – um recorde – das áreas da construção sustentável, saúde e digital.
Entrevista por Ígor Lopes
