“Um dos meus desafios é motivar os portugueses que mantêm apenas a nacionalidade portuguesa a exercerem o seu direito de voto”

Lintgen é uma comuna do Luxemburgo, pertence ao distrito de Luxemburgo e ao cantão de Mersch. E é neste cenário que vive o português Louis Pinto, eleito Bourmestre há cerca de um ano. Conta com diversas funções no seio da comunidade local, inclusive, interagindo com um número grande de nacionalidades.

Tem um trabalho muito próximo da comunidade portuguesa residente no Luxemburgo e anseia por fazer com que os seus conterrâneos exerçam o direito de voto. Durante a nossa entrevista, Louis Pinto falou sobre a chegada dos portugueses ao país, destacou as diferenças geracionais de portugueses imigrantes, sublinhou os desafios das suas atuais funções e defendeu que a integração dos portugueses no Luxemburgo, para ser plena, necessita passar pelo aprendizado da língua luxemburguesa.

Que funções desempenha exatamente como Bourgmestre da comuna de Lintgen?

Enquanto Bourgmestre, sou o chefe político da comuna e lidero todos os seus funcionários. Cabe-me presidir às reuniões do Conselho Comunal e tomar decisões importantes, como a atribuição de autorizações para construção no território de Lintgen. Além disso, desempenho funções de chefe da polícia local e tenho ainda a responsabilidade de celebrar casamentos. Em resumo, sou o responsável por garantir o bom funcionamento da comuna e a segurança dos seus habitantes.

O que representa exatamente ser Bourgmestre?

Ser Bourgmestre é liderar uma comunidade diversificada (75 nacionalidades diferentes), composta por pessoas de várias nacionalidades. Aqui, convivem cidadãos com diferentes níveis de escolaridade e experiências de vida, e é a mim que cabe tomar decisões que impactam o bem-estar de todos. No fundo, a função de Bourgmestre assemelha-se à de um pai de família: alguém que orienta, responde às necessidades e toma decisões para o benefício comum.

Quando que foi eleito?

Fui eleito Bourgmestre pelo Conselho Comunal de Lintgen a 8 de junho de 2023, e a 3 de julho fui oficialmente empossado pela Ministra do Interior. É importante sublinhar que o Bourgmestre não é eleito diretamente pelo povo, mas sim pelos membros do Conselho Comunal. Antes de assumir este cargo, fui vereador durante três anos, desde 2020, e antes disso, desde 2011, exerci funções como Conselheiro Comunal. Esta experiência permitiu-me conhecer a fundo a dinâmica da comuna antes de me tornar Bourgmestre.

Que desafios tem enfrentado?

O maior desafio que enfrentei foi provar à minha equipa que estou à altura das responsabilidades inerentes ao cargo. Dedico-me com total empenho, numa equipa onde sou o único português, a par com uma colega de origem dinamarquesa. Para liderar uma comunidade, é fundamental demonstrar capacidade e conquistar a confiança, tanto do Conselho Comunal como dos cidadãos. Naturalmente, há sempre pessoas que apoiam e outras que criticam. O meu trabalho diário consiste em provar que luto pelo bem-estar de todos e que aqueles que me criticam estão a subestimar o meu compromisso. A oposição está constantemente à espera de que cometa algum erro, e eu sinto a necessidade de reforçar, a cada dia, este sentimento de confiança. O meu princípio orientador é ser sempre socialmente consciente. Já consegui adquirir algumas casas antigas na comuna, que foram recuperadas e destinadas a pessoas com dificuldades sociais, que não conseguem pagar uma renda no final do mês.

Como avalia os primeiros meses à frente do cargo?

Agora que faz um ano, posso dizer que os primeiros meses foram desafiantes. Nos primeiros três meses, passei pelo que chamo de “Exame”, uma espécie de avaliação. A oposição testou a minha estabilidade, e consegui demonstrar que estou à altura do cargo. Hoje, eles sabem que, quando precisam de algo, sou eu que tomo as decisões. Já estou completamente instalado.

Quais as dificuldades da comunidade portuguesa no Luxemburgo?

A primeira geração, aquela que chegou há muitos anos, como eu, enfrenta poucos problemas. Trabalham, construíram as suas vidas, e os filhos estão bem integrados, muitos como professores, advogados ou médicos. O verdadeiro desafio reside na segunda geração, que chegou há cerca de uma década. Embora tenham qualificações académicas elevadas, enfrentam um mercado de trabalho com escassas oportunidades. Muitos acabam por aceitar trabalhos abaixo das suas qualificações, como na construção ou nas limpezas, o que lhes causa frustração. Para além disso, têm dificuldades em pagar as suas rendas ao final do mês. A barreira linguística também é uma questão importante. Insisto frequentemente que, para uma integração plena, é essencial aprender luxemburguês. Não se pode participar ativamente na vida política, por exemplo, sem dominar a língua. O francês é suficiente para o quotidiano, mas para alcançar certos objetivos profissionais, como uma carreira política ou cargos de liderança, o luxemburguês torna-se indispensável.

Que ações tem desempenhado no campo político?

Sou membro do partido socialista, o LSAP, mas a minha eleição como Bourgmestre não se deve exclusivamente a essa filiação. Fui eleito porque sou uma figura bem conhecida na comuna, pelas pessoas e pela comunidade. Os cidadãos escolhem a pessoa, não a cor partidária. Ser presidente de Câmara exige carisma e proximidade, é fundamental estar disponível para falar com toda a gente, apoiar os clubes associativos e ter um espírito solidário.

 

E junto da comunidade portuguesa no país, em que atividades tem estado envolvido?

Sou membro da OGBL e cheguei a integrar o Conselho do Executivo, onde tive a oportunidade de me reunir com muitos portugueses. Também participo em diversas cerimónias da Embaixada de Portugal no Luxemburgo, do CLAE, da ASTI e de outras instituições.

A Comuna apoia frequentemente este tipo de organizações, disponibilizando, por exemplo, salas para eventos e vins d’honneur (Vinho de honra).

 

Como é atuar na política do Luxemburgo tendo os pés postos em Portugal? Que experiências pode apontar?

Este ano estive em Portugal de férias, em Santo Tirso, a minha terra natal, onde visitei o presidente da Câmara, Alberto Costa. A minha ideia é criar uma geminação entre a Comuna de Lintgen e a Câmara Municipal de Santo Tirso. O meu objetivo é concluir este processo até ao final do meu mandato, reforçando os laços entre as duas comunidades.

Pode explicar que diferenças há no modo de vida, economia e na parte social entre portugueses e luxemburgueses?

Como já mencionei anteriormente, quando falamos de famílias portuguesas da primeira geração, não existem grandes diferenças em relação aos luxemburgueses. Esta geração adaptou-se plenamente ao país: têm a sua casa, carro, fazem férias, e levam uma vida normal. No entanto, as diferenças tornam-se evidentes na segunda geração de portugueses. Muitos destas famílias permanecem mais fechadas dentro da comunidade portuguesa, interagindo pouco com outras culturas devido à barreira linguística. Quando os convido para eventos luxemburgueses, a resposta é muitas vezes: “Mas o que vou lá fazer se não compreendo?”. Apesar disso, há exemplos de integração notável, como o Clube de Bombos, os “Zés Pereiras”, que participa na Festa Nacional e em várias outras manifestações sociais luxemburguesas. Quando acolhemos novos habitantes na comuna, organizamos um verre d’amitié onde apresentamos todos os clubes locais, e os “Zés Pereiras” estão sempre presentes, ilustrando esta fusão cultural.

Igor Lopes

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