Considerado um dos países mais ricos do mundo, o Luxemburgo é uma pequena nação europeia, fundadora da CEE – Comunidade Económica Europeia e da NATO – Organização do Tratado do Atlântico Norte, localizada entre a França, a Bélgica e a Alemanha, conhecida pela sua estabilidade económica e alta qualidade de vida. Com o mais alto PIB per capita da União Europeia e o melhor grau de notação das agências de rating internacionais, o Luxemburgo tem conseguido ao longo dos últimos 50 anos alcançar objetivos económicos que o colocam no topo dos indicadores de performance mundiais, gozando de uma grande estabilidade política e social e, também, de rigor orçamental.
Situação invejável que, de acordo com a OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, poderá continuar até 2060. Um resultado impressionante, se tivermos em conta que se trata de um dos países mais pequenos do mundo. O que vem categoricamente desmentir a ideia de que a dimensão geográfica é essencial para o desenvolvimento e o crescimento económico de um país.
Mesmo assim nem tudo são rosas. O Luxemburgo enfrenta também uma série de desafios que podem impactar o seu crescimento e estabilidade nos próximos anos e a longo prazo. Algumas dessas fragilidades são a sua dependência ao setor financeiro, a necessidade de uma maior diversificação da sua economia, a sustentabilidade ambiental e a atratividade de mão-de-obra altamente qualificada, de forma a garantir e melhorar a sua competitividade.
Embora o Luxemburgo desfrute de uma economia forte e próspera, o país enfrenta também desafios significativos. Por fim, a desigualdade económica é uma questão que não pode ser ignorada. Apesar do alto PIB per capita, a distribuição de riqueza no Luxemburgo é desigual. A implementação de políticas sociais e fiscais que abordem essa desigualdade afigura-se capital para garantir um crescimento inclusivo, sustentável e que dure ainda muitos mais anos.
Em suma, as principais forças da economia do Luxemburgo são a sua estabilidade política e social, um setor financeiro forte, uma indústria cada vez mais diversificada, um comércio exterior dinâmico, políticas fiscais atraentes e uma alta qualidade de vida. Estes fatores, combinados com outros que aqui não se citam, fazem do Luxemburgo um exemplo de sucesso económico na Europa e no mundo.
É neste contexto de um país economicamente atraente, mas altamente concorrencial e competitivo, que entrevistámos Francis Da Silva, presidente da CCILL – Câmara de Comércio e Indústria Luso – Luxemburguesa e da FECCIPE – Federação das Câmaras de Comércio e Indústria Portuguesas na Europa.
O Luxemburgo é um país que tem conseguido, ano após ano, invejáveis resultados económicos. Como explica isso?
O segredo reside na capacidade de decisão, antecipação, adaptação e perseverança na direção do país e ao mais alto nível político. E também porque o processo de decisão integra realmente e profundamente a sociedade civil. Aliás, existe na sociedade luxemburguesa uma forte tradição de consensos sobre as medidas a tomar ou a melhorar para garantir a atratividade económica e reforçar a estabilidade e paz social. Esta tradição de compromissos e consensos resulta em orientações políticas, económicas e sociais estáveis e duráveis, embora as maiorias parlamentares possam mudar.
Isto não contrasta com o lema do país que é “Queremos continuar a ser como somos” (“Mir wölle bleiwe wat mir sin”) ?
Pode parecer que sim, mas não o é. Embora esta divisa até possa ser a priori entendida como uma forma de resistência às mudanças que o passar dos anos sempre traz, o que ela traduz na realidade é um forte desejo de preservação da identidade própria do Luxemburgo e de respeito pela sua ancestralidade, da qual faz parte a sua história que já ultrapassou os 1.000 anos, a sua língua própria, o luxemburguês, e o seu multilinguismo. Permita-me sublinhar aqui que para se perceber melhor o que é o Luxemburgo, é preciso termos em conta que a fundação do país que hoje existe está intimamente ligada à era pós-napoleónica e às restruturações que houve então no espaço europeu nessa altura. Geograficamente situado entre as esferas de influência prussiana e francesa, o Luxemburgo moderno foi criado no Congresso de Viena de 1815 como um estado tampão, com o objetivo de separar as fronteiras entre os seus dois maiores países vizinhos e acabar com séculos de conflitos fronteiriços. O que a história demonstrou ser um logro, visto as três grandes guerras que houve entre eles desde então. Compreender o que é o Luxemburgo atual implica também saber que, ao longo dos séculos, o tamanho e a forma do território de Luxemburgo variaram consideravelmente. Até 1839, o país tinha duas regiões administrativas: uma de língua germânica e outra de língua francesa. No seu auge, o território do Ducado de Luxemburgo compreendia uma grande parte da Valónia belga, exceto o Principiado de Liège, uma parte do que é hoje a Renânia – Palatinado alemã e um pedaço da Lorena francesa.
Neste vasto território havia uma dualidade linguística germânico-românica que remonta à Idade Média. As variedades linguísticas germânicas, como dialetos do alemão central, e as variedades linguísticas românicas, como dialetos valões e da lorena, e o francês, coexistiam num sistema multilinguístico. Sistema que se mantém até hoje, mesmo se, entretanto, a antiga parte de língua francesa foi cedida à França e à Bélgica (outro estado então recentemente criado) e que o território de Luxemburgo é agora composto apenas pelo território de raiz germânica.
Na sua opinião, o que é que explica o sucesso do Luxemburgo na área económica?
Quando se analisa a história e estrutura económica do Luxemburgo ao longo do século passado, o que se destaca é a sua capacidade de adaptação e inovação num mundo em constante mudança. Além de ser um centro financeiro global e a segunda praça financeira mundial no que diz respeito aos fundos de investimento, o país tem investido com perseverança, por vezes com uma antecipação de dezenas de anos, em setores de alta tecnologia e inovação, como os satélites, a finança, a biotecnologia, as tecnologias da informação e a logística. Esta diversificação tem permitido ao Luxemburgo obter excelentes resultados e manter-se resiliente face às crises económicas internacionais.
