Começando pelo ponto de partida, a essência da atividade bancária consiste, de forma simplificada, em captar depósitos a curto prazo e conceder créditos a longo prazo, apoiando assim as famílias na aquisição de habitação, as pequenas empresas no crescimento dos seus negócios entre outros setores públicos e privados.
Contudo, devido à crescente concorrência e ao avanço tecnológico, nas últimas décadas assistimos a uma significativa transformação nos modelos de negócio dos bancos e à introdução de novos produtos como cartões de débito ou crédito, opções, futuros e derivados. Além disso, emergiram ideias inovadoras como as fintechs, ativos digitais — preferindo esta designação às criptomoedas — empresas especializadas em financiamento de curto prazo e a consolidação definitiva das instituições bancárias digitais. Este progresso na oferta de serviços financeiros mais ágeis e com menos burocracia trouxe maior competição que, no entanto, não se traduziu necessariamente numa melhoria do serviço ou numa redução de custos para o cliente no setor bancário português. Como este não é o foco desta reflexão, abordarei o sistema financeiro nacional noutra ocasião.
A evolução e transformação do setor bancário, comparada com a estrutura que conhecíamos há algumas décadas, traz consigo diversos riscos para o setor, sobretudo no que diz respeito às estratégias a implementar. Destacam-se aspetos como a fidelização dos clientes, a optimização dos produtos e serviços oferecidos e a criação de valor. Entre os riscos mais relevantes, encontra-se o risco de cibersegurança, que certamente é aquele que mais preocupa os profissionais especializados na área do risco. Contudo, é evidente também o fortalecimento de uma gestão de risco e controlo interno mais eficaz, sustentada por um ambiente regulatório significativamente mais rigoroso. Atualmente, enfrentamos ainda desafios adicionais decorrentes de questões geopolíticas difíceis de quantificar, além dos riscos climáticos que passaram a fazer parte das agendas dos Conselhos de Administração no setor financeiro e dos reguladores.
Contudo, a minha paixão pela banca e pela gestão de risco está relacionada não só com o papel de responsabilidade social dos bancos, mas também com o equilíbrio essencial entre risco e oportunidades que torna esta profissão muito desafiante. Este equilíbrio é fundamental para assegurar o alcance dos objetivos, mantendo o foco no cliente e cumprindo as exigências regulatórias. É neste contexto que a inteligência artificial surge como um elemento adicional de risco, bem como uma oportunidade, conceito que irei desenvolver a seguir.
Apesar de ainda existir a percepção de que a inteligência artificial é algo recente, ela já está presente há várias décadas. Um exemplo marcante foi a vitória do supercomputador Deep Blue sobre o campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, em 1997 — talvez o primeiro grande sinal de que os seres humanos estavam a criar máquinas com capacidades superiores às nossas em determinadas tarefas.
Hoje, vivemos uma nova fase, em que a inteligência artificial se tornou uma presença constante no nosso dia a dia. Isso tem gerado receios em muitas pessoas, especialmente em relação ao impacto que essa tecnologia poderá ter nas suas carreiras e no mercado de trabalho como um todo.
É natural que grandes mudanças gerem incertezas e dúvidas como é o caso. O ser humano tende a sentir medo diante daquilo que desconhece, especialmente quando confrontado com transformações frequentes e rápidas. No entanto, é fundamental encarar esse cenário como uma oportunidade de crescimento. Desenvolver novas competências e sair da zona de conforto são atitudes essenciais para se adaptar e prosperar num mundo cada vez mais moldado pela tecnologia.
Como foi mencionado ao longo do texto, o setor financeiro está a passar por uma profunda transformação, impulsionada pelo avanço da inteligência artificial. Esta tecnologia tem contribuído significativamente para a automatização de tarefas rotineiras, como a elaboração de relatórios, a redução do tempo de resposta na concessão de crédito e o aumento da eficiência nos serviços prestados aos clientes. Além disso, permite o processamento de grandes volumes de dados — o chamado Big Data —, oferecendo suporte ao decision-making e a análises comportamentais mais precisas.
Do ponto de vista pessoal, vejo a inteligência artificial como um recurso fundamental para o setor financeiro, especialmente na redução de erros e na melhoria da qualidade e da rapidez dos serviços.
Por outro lado, é importante reconhecer que a inteligência artificial também pode ser utilizada por agentes mal-intencionados, contribuindo para o aumento exponencial da fraude e dos riscos de cibersegurança. No entanto, a mesma tecnologia tem desempenhado um papel cada vez mais relevante na prevenção desses mesmos riscos. Este é um bom exemplo do equilíbrio que é necessário alcançar, como referi anteriormente neste texto.
Os bancos, por exemplo, já conseguem identificar em tempo real transações potencialmente fraudulentas, reduzindo significativamente as perdas financeiras. Além disso, a inteligência artificial pode ser aplicada no desenvolvimento de novos negócios e em serviços de consultoria (advisory), ampliando ainda mais o seu valor estratégico, sendo apenas algumas das vantagens referidas ao longo do texto.
Em conclusão, é evidente que a integração da inteligência artificial está a transformar profundamente o setor financeiro, com resultados imediatos no aumento da eficiência, na melhoria do atendimento ao cliente e na execução de tarefas complexas com rapidez e precisão. Sem dúvida que os bancos devem encarar a implementação da inteligência artificial como uma prioridade nos próximos anos. Esta conclusão não se aplica apenas aos Bancos e deveria ser alavancada nos setores públicos e privados.
