O Salão Nobre da Câmara Municipal do Funchal acolheu, no dia 9 de julho de 2025, a apresentação do livro Com a mala cheia de sonhos, da autoria de Graça Maria Nóbrega Alves, professora, escritora premiada e diretora do Museu de Arte Sacra do Funchal. A obra foi editada com o apoio da Unidade de Diáspora e Migrações da autarquia e resulta de um trabalho de recolha de memórias e testemunhos da emigração madeirense.

Testemunho de uma vida

O livro segue a história de Manuel Alexandre da Costa, natural da Ponta do Pargo, que emigrou da Madeira ainda criança, com apenas 12 anos, rumo à África do Sul nos anos 60 do século XX. “A minha mãe preferiu mandar um filho para o mundo do que mandá-lo para a guerra… Partiu num vapor do Cabo com uma mala vazia. Encheu-a de sonhos”, recordou o protagonista durante a apresentação.

Após décadas de vida ativa na comunidade luso-sul-africana, Manuel regressou à Madeira em 1991. É hoje vice-presidente da Assembleia da ApiMadeira e da Associação Luso-Sul-Africana Portuguesa, tendo sido reconhecido pelo seu empenho cívico e dedicação à preservação da identidade madeirense no estrangeiro.

Uma homenagem à diáspora madeirense

Mais do que um percurso pessoal, “Com a mala cheia de sonhos” presta homenagem a milhares de emigrantes que deixaram a Madeira em busca de uma vida melhor, sobretudo rumo à região de Joanesburgo. A obra aborda temas como a resiliência, a saudade, a , a reconstrução identitária e o papel das associações migrantes no apoio e integração das comunidades.

Na sessão de lançamento, Paula Margarido, Secretária Regional da Inclusão, Trabalho e Juventude, descreveu o livro como “um testemunho poderoso da coragem silenciosa de muitos madeirenses”. Já Ana Bracamonte, Vereadora da Diáspora e Migrações, destacou a obra como “uma ponte de empatia entre gerações”.

A comunidade luso-sul-africana hoje

Segundo dados institucionais recentes, estima-se que cerca de 200 mil portugueses e lusodescendentes vivam atualmente na África do Sul, muitos deles com raízes na Madeira. Trata-se de uma das comunidades portuguesas mais relevantes fora da Europa, embora enfrente hoje desafios como a insegurança e a violência, com impacto direto nas famílias emigradas.

Literatura e memória como património coletivo

 Graça Maria Nóbrega Alves afirmou que a obra “restitui voz e memória a quem enfrentou o processo migratório e, muitas vezes, o silêncio do regresso”. A autora defende que o livro é também uma forma de preservar a história atlântica da Madeira e dar visibilidade a histórias que, embora individuais, representam uma vivência coletiva partilhada por milhares de emigrantes.

Na sessão, a autora concluiu: “Este é um livro com rosto, mas de alcance coletivo – um reconhecimento justo daqueles que, pela emigração, marcaram o percurso da Madeira no mundo.