Carolina Rendeiro é cônsul honorária de Portugal em Miami. Nascida em New Jersey, traz as suas origens portuguesas no peito, facto que a torna responsável pelos portugueses num dos maiores e mais relevantes estados norte-americanos.
Em entrevista exclusiva à Diáspora Lusa, durante passagem por Cascais, Carolina Rendeiro falou sobre a força do movimento associativo luso na Flórida, destacou o papel dos portugueses nos EUA e revelou o que pensa sobre os desafios encontrados pelos portugueses no país hoje liderado por Donald Trump, como o ensino da língua portuguesa.
Conte-nos o seu percurso até chegar a Miami…
Sou filha de pais de imigrantes, de 1941. Fui criada numa casa que era diáspora mesmo. Então, a outra noite estive a contar a história aqui a uma colega da embaixada norte-americana, a dizer que o meu padrinho construiu uma caixa de madeira, que nós fazíamos uma matança de porco para fazer os cozidos, os enchidos, isso tudo. E nós tínhamos isso em New Jersey, eu nasci em 1951. Portanto, eu lembro-me como criança, até os anos 1960, a fazer aquilo ali com os meus pais. Portanto, um imigrante pode sair do país, mas nunca se sai do sangue. A alma fica cá sempre. E o meu pai trabalhou numa fábrica, a minha mãe também, e fizeram pela vida. Eu e o meu irmão tivemos as oportunidades todas que eles nunca tiveram.
E onde é que aprendeu a falar tão bem o português?
Eu aprendi com os meus pais. Mesmo só pela terceira classe. Eu, quando vinha para Portugal, estudava português. Eu sempre soube que vinha viver para Portugal, o que aconteceu em 1969. E estive cá durante a revolução e acabei por me casar. E a minha filha nasceu cá. Eu só depois de autorizada é que consegui ter a dupla nacionalidade. Mas a minha filha, como mãe norte-americana, pai português, teve a dupla nacionalidade logo no nascimento. A minha filha é a mesma coisa. Ela também pensa em regressar a Portugal.
E a sua filha também vive em Miami?
Não, ela está em Houston. Quando saí aqui de Portugal, eu fui trabalhar para Houston, Texas. E fiquei lá durante 25 anos e estabeleci os meus centros de negócios que depois acabei por alienar. Tive um pedido para abrir a primeira incubadora para aquelas startups da América Latina. Do Brasil, da Argentina. Foi em 2002. Então, o que eu estava a trabalhar nesse momento, como consultora para eles, era IBM, AT&T, e Nicholas F. Brady, former Secretary-Treasurer of the United States, que era a empresa Darby Tech. E foi assim que eu cheguei a Miami. Era para estar lá um ano. Isso foi em 2003. E ainda lá estou.
Dezasseis anos, não é? Mas diz que trabalhou em vários países…
Por causa da minha empresa. Eu como fiquei como expert em Shared Workspaces, que são as soluções de escritórios cowork e virtuais. The Coworking Spaces. Eu já estava nisso em 1979. Portanto, não é novidade nenhuma. Exatamente. Agora é que é um boom no Brasil. E faz sentido, porque é o custo de ter um negócio, é o espaço.
Trata-se de um centro empresarial?
Exatamente, é um centro empresarial. E então, eu fui montar esses para outras pessoas. Em Dubai, trabalhei lá durante quase dois anos, em Cuba e Havana. Também em Espanha e em vários outros países. Era isso que eu ia fazer. Então, também comecei a fazer o onboarding da equipa e a sua formação. Porque o que eles queriam era uma base de empresas americanas que fossem lá alugar o espaço. Portanto, para ligar com o americano do modo que nós trabalhamos, é preciso um onboarding. Porque nós não temos horário. Isso é bom e mau.
E depois foi parar a Miami, então, há 16 anos.
Fui para lá em 2002.
De que forma chegou ao cargo Cônsul Honorária e como é que foi assumir essa responsabilidade?
Foi o Sr. Embaixador Domingos Fezas Vital que fez o pedido, com o apoio de outras personalidades que também concordaram na minha nomeação. Eu tinha já vários contatos na cidade: colaborei com o Presidente da Câmara de Comércio de Coral Gables, fazia parte da Beacon Council, da Economic Development entre outros cargos que desempenhei. E, por outro lado, havia um cônsul honorário em Palm Coast acabando por existir a necessidade de criar o cargo para Miami.
Mas já não é cônsul em Palm Coast?
Não, neste momento sou eu a única cônsul honorária na Flórida. Embora só tenha o título de Miami, em Palm Coast, neste momento, só temos uma pessoa que vem da Embaixada, assim como nós estamos em Miami, para fazer os serviços técnicos. Mas eu, de boa vontade, foi mais orgulho como portuguesa, como dos norte-americanos, mas eu conhecia bem a cultura portuguesa, o povo português, a cultura americana e a forma como se poderia juntar isto tudo. E depois tenho ajudado, tenho facilitado reuniões para a AICEP, quando precisam, também em Miami, logicamente para embaixadores, se necessitam de nós. Mas também já estamos numa fase em que a presença portuguesa é expressiva.
Quantos portugueses vivem em Miami?
Em Miami, no Estado inteiro, acho que a última contagem são cerca de 111 mil luso-descendentes. Aproveito para contar uma história do nosso Conselheiro-Geral do Brasil que tem passaporte português, respetiva família. Eu digo sempre, ele é supersimpático, nós entendemo-nos muito bem. Eu vou dizer que não são todos portugueses aqui da nossa terra, pois são como eu, norte-americana.
E como é ser português na Flórida? O que é que é diferente? A portugalidade na Flórida é diferente, por exemplo, de Newark, New Jersey?
A diferença é esta: nós, por exemplo, em Miami, não estamos na melhor localização geográfica nos Estados Unidos. É um ponto menos positivo. Temos de nos deslocar, pelo menos 30 ou 40 milhas ao norte para entrar nos Estados Unidos. Nós estamos ali numa zona repleta de uma mistura da cultura da América Latina, das ilhas. Agora, o que é que temos mais? Por exemplo, eu fui criada em Newark, New Jersey, nos clubes portugueses, no Louisville, na Fortuna, no Sporting, nisso tudo. Sobre os restaurantes portugueses, existe um do meu Tio e o meu primo agora também explora um. Isto é tudo, foi uma cultura que nós, os nossos pais, os meus tios, tudo saiu de Portugal, mas criaram Portugal em Newark, New Jersey. E, portanto, eu sabia todas as músicas dos refrões folclóricos, por exemplo. É aquele amor à terra. Há uma terra que nós não conhecíamos bem e à medida que nós, pelo menos comigo, à medida que eu fiquei mais velha, até nos alunos de faculdade, eu vi o sacrifício que foi dos meus pais e dos meus padrinhos e dos meus tios para deixar o seu país e tudo o que eles conheciam. Imigração nessa altura não era imigração.
São os patriarcas…
A imigração nessa altura era feita por uma pessoa com a terceira classe. E foram muitos que saíram. Eu vou falar da Murtosa. Saíram daquela zona, da Murtosa e da Torreira, sem falar uma palavra de inglês. Mal sabiam escrever. Tinham a terceira classe. Para ir refazer a sua vida e criar uma nova vida de 30, 40, 50 anos e alguns ainda lá estão, por amor de família. E eu acho que isso, para mim, é que é imigração. E é por isso que estou tão envolvida nesta diáspora. E eu fui criada com a diáspora.
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Portanto, para si, existe mesmo portugalidade no mundo?
Esta palavra portugalidade. Toda a parte que eu vou, eu procuro se existe algum restaurante português, algum clube português. E há sempre. E depois olham para o meu nome e dizem: a senhora é portuguesa? Eu digo: bem, sou luso-americana.
Em termos do ensino da língua, como é que nós estamos nos Estados Unidos, nomeadamente na Flórida? O que é que acha?
Eu acho que há muita coisa para fazer no ensino da língua. Há muita coisa para fazer.
O que é que está mal e o que é que está bem? O que é que gostava? Sugestões?
É porque há muitos no ocidente que não falam português. Nós fomos obrigadas por exemplo na minha época, quando eu nasci, depois quando comecei a ir para as aulas. O meu irmão tinha mais de dez anos. Eu nós também já falávamos inglês. Então, nós é que ficávamos a ser os intérpretes para os meus pais. Nós aprendemos bem o que é a vida de uma pessoa que trabalha numa fábrica que não sabe falar a língua e que tinha que resolver os seus problemas. E tem que depender dos filhos. Por isso, no ensino da língua há muito para fazer.
Há muito para fazer, certo?
O Alberto Carvalho, que era antigo superintendente da Escola J. Houston, estava a trabalhar nisso. Eu considero que um dos desejos que temos é ensinar mesmo um português. Porque eu também acho que as pessoas que estão a vir para cá devem aprender o português para se integrarem bem aqui. Aqui em Cascais, na rua, é só o inglês ou o português ou o espanhol que se escuta. E eu a pensar, mas o que aconteceu à nossa terra?
E não há uma responsabilidade do governo português no caso da língua?
Eu acho que sim. Eu acho que agora também o governo está obrigado, as pessoas estão a pedir nacionalidade para começar também a ter um certo nível de conhecimento da língua, que é importante porque nós também não podemos perder a nossa identidade, claro.
E entrando num capítulo mais sobre a representatividade política, por exemplo, no caso das eleições, agora fala-se muito do voto eletrónico, portanto, o que é que têm alguma opinião formada sobre isso?
Eu não sou de carreira diplomática, mas como é que poderíamos lidar com essa situação? Eu acho que é muito importante, eu vou falar para o Estado da Flórida, é importantíssimo para mim, que eu já estou a pedir há uns anos, é nós possamos ter pessoas e eleições, tanto em Palm Coast como em Miami. Porque para uma pessoa ir votar a Palm Coast demora quatro horas e meia de viagem de carro para cada lado. E como nós podemos fazer eleições num sábado num lugar e no domingo noutro, seria ideal, com a diferença do horário e tudo.
Mas isto do voto eletrónico, já dizem que isto era um caso a estudar a sério…
E é um caso a estudar a sério, mas até isso acontecer, o que sabemos é que as coisas demoram tempo, é já planeada uma estratégia. Eu fui para a Palm Coast. Exatamente. Mas porquê? E tivemos pouca gente a votar, porque aquele sistema de pôr no envelope e depois os correios não funcionam. Temos que avançar em muita coisa. E a representatividade. Há quatro deputados eleitos para cinco milhões de portugueses. Nós temos cerca de um milhão de portugueses nos Estados Unidos, que têm voz. E essa voz devia falar alto. Devia estar aos gritos. Eu grito muito. Às vezes, ninguém ouve. Mas eu acho que é importante ouvir. Se nós facilitarmos a vida de uma pessoa que trabalha, o nosso trabalho nos Estados Unidos são 8, 10 horas por dia. São alunos. As pessoas trabalham sábados. Só têm meio-dia, domingo, de folga para fazer tudo e mais alguma coisa. Isso, a pessoa tem que adaptar-se ao nível para onde vai. Por exemplo, um cônsul-geral em Miami não é o mesmo custo de um cônsul-geral, vamos dizer, em Huntsville, no Alabama. Exatamente. Nós somos, em Miami, neste momento, mais caro do que Nova York.
E quantos portugueses há em Miami?
Temos 35 municípios em Miami-Dade County. Miami-Dade County e Broward County, chamada Tri-County Area. Agora temos muitos jovens portugueses por lá. Temos agora um grupo entre os 25 aos 40 anos que já foi para lá com a família, que é a nova imigração. Essa imigração já não regressa cá por mais 20 ou 30 anos. E essa é a geração que já deveria ter cá.
Existem meios de comunicação social portugueses na Flórida?
Temos, olha. Eu estou no Facebook.
E em termos de clubes?
Clubes temos sete. Sete clubes no Estado da Flórida. E as pessoas ainda se reúnem. O movimento associativo é muito forte.
É o que agrega a comunidade portuguesa?
Sim, é o que agrega. Eu, quando estive, já vai fazer dois anos, com a Rita Fagan e o Miguel Vaz e a Helena Angel, fomos dar um passeio para conhecer as comunidades portuguesas no Estado da Flórida. Fez agora um ano em novembro. E eles viram. A comunidade é muito unida. E é viva. Ainda bailamos o vira. Estamos ali nas marchas. Fizemos tudo. O 10 de Junho-Dia de Portugal é muito comemorado. Mas um Estado que está a uma distância brutal do norte e do sul – só de avião e, mesmo assim, não vai chegar no dia – nós temos que nos organizar. Para mim, eu achava ideal no Estado da Flórida, quando somos tão grandes. Este ano vai ser em West Palm Beach. No próximo ano vai ser em St. Petersburg. No próximo ano vai ser em Porto.
