Literatura épica, imagem cerâmica e construção simbólica da nação. Jorge Rey Colaço (1868–1942) foi um artista multifacetado que marcou de forma decisiva a azulejaria figurativa portuguesa da primeira metade do século XX.
Nascido em Tânger no seio de uma família de artistas, teve desde cedo contacto com o meio artístico, o que lhe permitiu seguir um percurso pouco convencional para a época, afastando-se do ensino académico formal e optando antes pela formação em ateliers de artistas em Madrid e Paris.
Desenvolveu atividade como ilustrador e caricaturista, dirigiu um suplemento humorístico do jornal O Século entre 1897 e 1903, foi pintor a óleo premiado em exposições e, a partir da viragem do século, passou a dedicar-se de forma sistemática à pintura sobre azulejo, suporte no qual produziu uma obra vasta e inovadora.
Colaço trabalhou inicialmente na Fábrica de Sacavém e, a partir de 1923, na Fábrica Lusitânia, explorando diversas técnicas cerâmicas, pintura tradicional, estampilha, corda seca, serigrafia, e introduzindo uma inovação relevante ao pintar sobre vidrado já cozido. A sua produção baseava-se num método rigoroso, partindo de numerosos estudos prévios em aguarela e grafite, que funcionavam como base para a execução dos painéis. A sua obra foi dominada por uma forte preocupação temática, assumindo como lema fundamental “Portugal”, entendido como fonte inesgotável de motivos artísticos, históricos, culturais e simbólicos.
No conjunto da sua produção, destacam-se grandes núcleos temáticos: cenas históricas e militares, temática religiosa, paisagens e costumes rurais e piscatórios, representação da arquitetura e, de forma muito significativa, a glorificação da epopeia marítima portuguesa e da literatura camoniana. A obra de Colaço insere-se num contexto cultural marcado pela redescoberta de Portugal, pela valorização da identidade nacional e pela procura de elementos distintivos da cultura portuguesa, num movimento que atravessa várias áreas artísticas no início do século XX.
É neste enquadramento que se compreende a presença de Os Lusíadas na sua obra azulejar. A epopeia de Camões surge como fonte privilegiada de inspiração simbólica e narrativa, permitindo ao artista articular visualmente a ideia de Portugal como nação de heróis, navegadores e feitos extraordinários. A mitologia camoniana, os episódios heroicos e a visão providencialista da história portuguesa são transpostos para o azulejo como imagens monumentais, integradas no espaço arquitetónico e destinadas a um público alargado.
A utilização de Os Lusíadas por Colaço não corresponde a uma simples ilustração literal do texto, mas a uma apropriação seletiva e interpretativa dos seus episódios mais densos em significado simbólico. A epopeia oferece-lhe personagens, alegorias e situações que condensam valores considerados estruturantes da identidade nacional – a coragem, a honra, o sacrifício, a superação do desconhecido e a missão histórica. Estes valores são convertidos em imagens cerâmicas de grande impacto visual e emocional, integradas em programas decorativos coerentes e narrativos.
A transposição do texto literário para o azulejo transforma a epopeia em experiência espacial. A literatura deixa de ser apenas objeto de leitura e passa a integrar o quotidiano dos espaços habitados: estações, palácios, edifícios públicos e privados. O azulejo, enquanto suporte profundamente enraizado na tradição arquitetónica portuguesa, permite fixar a memória literária num meio duradouro, visível e acessível, convertendo-a em património visual coletivo.
Esta opção tem igualmente uma dimensão pedagógica e formativa. As imagens azulejares funcionam como dispositivos de transmissão cultural, fixando narrativas históricas e míticas e contribuindo para a formação do imaginário nacional. A epopeia camoniana passa a ser não apenas lida, mas vista, percorrida e experimentada no espaço, reforçando a sua presença na memória social.
A obra de Colaço desenvolve-se num contexto ideológico marcado pela valorização da “portugalidade”, pela exaltação do passado histórico e, a partir da década de 1930, pela instrumentalização cultural da história por parte do Estado Novo. Embora a sua produção não se reduza a um discurso de propaganda, ela dialoga com este contexto e participa na construção de uma imagem idealizada de Portugal: heroico no passado, rural e espiritual no presente, coeso na sua identidade cultural.
Ainda assim, a presença de Os Lusíadas na sua obra deve ser entendida sobretudo como expressão da sua visão artística e cultural. Para Colaço, a epopeia não era apenas um texto literário, mas um reservatório simbólico capaz de estruturar uma narrativa visual sobre Portugal. Através do azulejo, constrói uma ponte entre literatura e artes visuais, entre palavra e imagem, entre memória escrita e memória sensível.
Em síntese, Os Lusíadas na obra azulejar de Jorge Colaço constituem um processo de tradução simbólica da epopeia em imagem, arquitetura e espaço público. Ao converter o texto camoniano em património visual duradouro, Colaço contribui para a fixação da memória histórica e literária na paisagem cultural portuguesa do século XX, demonstrando o papel central da azulejaria como meio de mediação entre arte, história e identidade.
Património por Claudia Emanuel
