Há séculos os Portugueses podem até matar, sem armas. Como não saborear aqueles acepipes, os bacalhaus a moda da bisa, os doces das freiras que nos levam ao céu? Assim é um encanto morrer, chegar ao éden pelas mãos, sorrisos e habilidade. Em manter o truque da avó, passado pela boca da mãe que deixa os nossos palatos viajar por mares nunca dantes navegados e chegar ao paraíso.
A primeira vez que adorei essa comida, foi numa tasca, no Rio de Janeiro, onde eu almoçava, pois trabalhava num escritório de engenharia. Ahhh, aquele cozido… Outra que me encantou foi quando eu trabalhava na Radio Suécia, em Estocolmo, não tinha tempo para almoçar, era um cheeseburger, e o jantar as 19h30 era um paraíso de relax. Provei de tudo.
Anos depois eu vivia em Malmö, trabalhava no estaleiro naval da Kockums, já tinha estado em Portugal e recrutado soldadores da Lisnave (meu artigo na Revista de Marinha). Tinha uma namorada em Copenhaga, onde ia passar o fim de semana e descobri uma tasca, num beco. Entre o sabor dela e o do restaurante, confesso, não sei o que era melhor.
Pouco depois fui trabalhar para um ministro, no Rio de Janeiro. Ansiava por uma namorada. Encontrei uma meio-índia, meio-portuguesa. Levei-a a almoçar bacalhau à Brás no bairro Castelo. Ela se sentiu uma rainha e, com ela, eu me senti o rei. Os palatos dançaram e depois os corpos sambaram.
Volto a Estocolmo, para a rádio entrevistei o Coordenador da diáspora por lá. Viámo-nos uma vez por mês, a saborear a maravilhosa gastronomia portuguesa e, pela primeira vez, a degustar vinhos do Dão e do Douro. Eu ficava endourado.
Muito depois fui ser consultor em Nova Iorque. Adorava os sábados em Greenwich Village, onde havia música a escolher, jazz, soul, até fado. Descobri uma tasca onde provei a barriga de freira. Que sobremesa… Não, lá eu não tive namorada. Aquela barriga, só de a ver, me satisfazia.
Em Boston, devido a influencia da enorme diáspora na região, provei um Gomes de Sá. Não sei quem foi este senhor, mas junto com Camões, ficou na memória. Em San Francisco, ao pé da falha tectónica, senti um abalo sísmico. Fiquei abalado, falha minha, não procurei um prato português.
Já como consultor para o Banco Mundial, fui trabalhar em Manila, Filipinas. Vivia num subúrbio, Makati. Apanhava aquele antigo jeep, alterado a carrinha, para ir ao fim do bairro, onde havia uma rua quase toda com tascas.
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Foto: Jeepney, Magallanes Drive, Intramuros, 2018 (02) – Jeepney – Wikipedia
Em qual restaurante eu falei português? Ahhh, aquele peixe fresco, grelhado, com os grandes tomates que só mais tarde comi no Algarve, que de tanto sol eram doces, relaxantes, para compensar a amargura de boas ideias no projeto e giga travas no real. Ahhh aquele pastel de Belém feito em Makati…
Ainda como consultor, já chefe de projetos, fui para onde ninguém queria ir. Interior da Tanzânia, Botswana, Angola, Moçambique, Cabo-Verde. Um rei da bola da indústria por lá não é príncipe, mas deve seguir o protocolo, comer o que há. Cérebro de macaco, cozido de mico, pepino do mar, cauda de jacaré… Não, lá não havia bacalhau nem pastel de nata.
Lá fui para Nanjing, na China, nada de restaurante Português. Tjeboksari, à beira do Volga, na Rússia – njet. Mas lá aprendi com a professora a fazer borstj, dançar cossaco, e até mesmo falar russo.
Algo aprendi. Hoje ofereço pratos italianos, com molhos de 17 ingredientes e ainda Ris à la Jack, em provas de vinho, a empresários estrangeiros, que a imprensa descreve. É beneficente, apoio instituições como o Banco Alimentar, a Santa Casa e a Cruz Vermelha.
Reformei-me, vim para o melhor país do mundo, com a melhor gastronomia e os melhores vinhos. E, sobretudo, o povo mais simpático do mundo. Portugal, PORTUGAL, POR-TU-GAL! YES, WE CAN, TOGETHER!
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Investimento em Portugal por Jack Soifer
