O gigante sul-americano tem hoje 130 milhões de pessoas, mais 17 milhões do que há quatro anos, na chamada Classe C, a faixa que sustenta a maior parte da sociedade de consumo do país. O número merece uma leitura pragmática e realista dos investidores.
Num país, como o Brasil, conhecido por uma economia muito desigual, um número tornado público recentemente serve de alento – desde que com responsabilidade – para eventuais investidores portugueses e não só.
Nos últimos quatro anos, grosso modo desde a eleição de Lula da Silva, a Classe C, faixa sócio-económica que ganha entre 2560 e 10885 reais (cerca de 425 a 1800 euros) por mês e estava estagnada desde 2016, cresceu.
Segundo dados recolhidos por Marcelo Neri, economista e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas Social, e citados pela revista Veja, 17 milhões migraram para a tal Classe C, somando agora 130 milhões de brasileiros na sociedade de consumo. Desde 2014, a Classe C estava estacionada em 56% ou menos, por culpa de recessões, pandemias e caminhos políticos diferentes nas gestões de Michel Temer e Jair
Bolsonaro; agora corresponde a 61% da população.
O dado revela um paradoxo conhecido da economia brasileira. Por um lado, o país consegue retirar milhões de pessoas da pobreza, criando uma vasta base de consumidores, mas, por outro, continua a enfrentar dificuldades para transformar essa massa numa classe média de rendimento elevado, fenómeno frequentemente descrito como a “armadilha da renda média”.
Para empresas e investidores, porém, o número merece uma leitura menos pessimista e mais pragmática: escala.
Poucos mercados no mundo oferecem um universo de centenas de milhões de consumidores em processo de ascensão económica, com padrões de consumo em transformação e uma procura crescente por serviços, infraestruturas e bens de maior valor acrescentado.
Esse é um dos motivos pelos quais o Brasil continua a ser, apesar das suas conhecidas complexidades regulatórias e institucionais, um destino recorrente de investimento internacional.
É também aqui que surge uma vantagem particular para Portugal.
A língua comum reduz custos de entrada no mercado, facilita a adaptação cultural e acelera a criação de relações de confiança, fatores frequentemente decisivos em processos de internacionalização empresarial. Num ambiente económico difícil, essa proximidade pode representar uma vantagem competitiva relevante.
Não por acaso, grandes empresas portuguesas já fizeram esse caminho nas últimas décadas. Entre outros exemplos, a presença de grupos como a EDP Brasil, a Mota-Engil ou a Galp ilustra como o mercado brasileiro pode funcionar não apenas como destino de investimento mas também como
plataforma de crescimento.
Num momento em que cadeias económicas globais se reorganizam e novas aproximações comerciais ganham força – incluindo as negociações entre o Mercosul e a União Europeia – o espaço lusófono continua a oferecer uma combinação rara de afinidade cultural, dimensão de mercado e potencial de expansão.
Portugal, integrado no mercado europeu, e o Brasil, com a sua escala continental, representam dois pólos naturais desse espaço económico.
Entre ambos, permanece um ativo frequentemente subestimado: uma língua comum que, mais do que património cultural, pode também funcionar como infraestrutura económica.
Num mundo em que confiança, adaptação cultural e redes de relacionamento continuam a pesar nas decisões empresariais, esse fator pode ser menos simbólico do que muitas vezes se pensa.
E talvez seja precisamente aí que reside uma parte da oportunidade.
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Cartas do Brasil por João Almeida Moreira
