Como a frase “a minha pátria é a língua portuguesa” antecipou um mercado de 260 milhões de pessoas. Com a licença de todos os economistas portugueses de sucesso do passado e do presente, o maior tratado económico do país tem a assinatura de um poeta.
Quando Fernando Pessoa, ou, para ser mais exato, o heterónimo Bernardo Soares, um mero ajudante de guarda-livros lisboeta, disse “a minha pátria é a língua portuguesa” influenciou do ponto de vista financeiro a vida de milhares, ou mesmo milhões, de portugueses, entre os quais o autor deste texto.
Eu, português, que vivi no meu país até aos 37 anos, às tantas decidi, com uma enorme dose de loucura e pitadas de sensatez, ir para o Brasil sem contratos nem garantias, sem estabilidades nem seguranças,
apostando unicamente numa frase, naquela frase: a minha pátria é a língua portuguesa.
Não sou mais, recuso-me, de um país pequenino de 10 milhões. Não: sou de um gigante de 260 milhões que se espalha como talvez nenhum outro pelos cinco continentes.
A um jornalista – profissão a que dediquei 30 anos da minha vida, em certos momentos, 24 horas por dia, sete dias por semana – o tratado de Bernardo Soares aplica-se muito bem. A um empresário – que, em certa medida, também sou – aplica-se melhor ainda.
Afinal, nessa perspetiva empresarial, a língua serve como facilitador nos custos de transação, por exemplo.
Outro exemplo? Favorece a confiança empresarial.
Mais um? Acelera a integração de mercados. E entre – nunca é demais repetir ainda para mais num espaço chamado Diáspora – 260 milhões de pessoas espalhadas por cinco continentes.
Em particular, o Brasil, meu ponto de destino e casa de 215 desses 260 milhões, é o músculo central – coração, se quisermos usar a imagem de um corpo vivo – da lusofonia, da língua, logo, da economia.
Ainda para mais na atual conjuntura de reconfiguração das cadeias globais, de novas alianças comerciais e da aproximação entre Mercosul e União Europeia.
Já Portugal, meu ponto de partida e casa de 10 milhões de lusófonos integrados à União Europeia, é as mãos: uma espécie de intermediário económico entre o gigantismo do Brasil e os mercados mais sofisticados, uma espécie de tradutor cultural, uma espécie de parceiro tecnológico pequeno no tamanho mas gigante na importância estratégica.
Teoria? Perguntem à EDP Brasil, à Mota-Engil, à Galp, à Vila Galé e a tantas outras empresas fizeram a mesma viagem do que eu – de Portugal para o Brasil – e se descobriram, na prática, a fazer a viagem da vida delas.
Além do histórico Portugal e do potente Brasil, a diáspora portuguesa espalhada por outros eixos da lusofonia mas também no mundo anglófono e francófono, funciona como uma ponte de confiança, um radar cultural, uma rede informal de negócios, uma família alargada que, como sucede com todas as famílias, partilha valores, afinidades, sensações.
E muito potencial económico, como a versão Bernardo Soares de Fernando Pessoa entendeu no Livro do Desassossego, muito antes de a globalização transformar a língua portuguesa numa pátria de
negócios.
Cartas do Brasil por João Almeida Moreira
