A Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo marcou presença no “Portugal Nação Global” com uma estratégia centrada na promoção internacional do território e na captação de novos investimentos ligados à diáspora portuguesa. O encontro, realizado no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no final de abril, reuniu representantes institucionais, empresários e comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo para debater oportunidades económicas, cooperação internacional e desenvolvimento regional.

Em entrevista à Diáspora Lusa, Fernando Romba, primeiro-secretário da Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo, destacou a dimensão territorial da região, considerada a maior comunidade intermunicipal do país, bem como a diversidade económica e cultural do território. O responsável apontou o crescimento do setor agrícola e agroindustrial, impulsionado pelo regadio do Alqueva, o reforço do enoturismo e a expansão da oferta hoteleira como alguns dos principais fatores de transformação económica do Baixo Alentejo.

Ao longo da entrevista, Fernando Romba sublinhou ainda a importância do investimento proveniente da diáspora, referindo casos de empresários portugueses emigrados que regressaram ao território trazendo não apenas capital, mas também conhecimento técnico e experiência internacional. A região, que este ano ostenta o título de “Cidade Europeia do Vinho”, procura igualmente reforçar a promoção externa dos seus vinhos, do turismo e das áreas empresariais disponíveis para acolher novos projetos, numa altura em que o Baixo Alentejo enfrenta desafios ligados à saída de jovens qualificados e à necessidade de fixar população no interior do país.

Como caracteriza a Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo?

O Baixo Alentejo tem 13 municípios, é a comunidade intermunicipal maior do país, tem mais de 8.500 km², e mais de 115 mil habitantes. A capital é Beja, portanto, é o município mais conhecido, mas depois temos municípios muito pequenos, como é o caso de Barrancos, que é um município muito característico, fica na zona da Raia e que tem um dialeto próprio que é o “Barranquenho”, portanto, para além do mirandês, é o único dialeto reconhecido em Portugal. E temos um território distinto, portanto, pelo facto de ser grande, não temos costa, não chega ao mar, mas “é banhado”, a norte, pelo Alqueva, que é o maior lago artificial da Europa, cerca de oito municípios mais a norte tem o Alqueva, mais a sul o território é caracterizado do ponto de vista agrícola por zona de montado, principalmente, portanto, mais gado, e algum cereal também. E temos, no nosso território, duas minas, as minas de Aljustrel e as minas de Neves-Corvo, que são minas de pirites, portanto, da faixa piritosa ibérica, que estão a ser exploradas e estão em fase de expansão também. Este ano somos “Cidade Europeia do Vinho”, o Baixo Alentejo, temos um conjunto também de produtores e de viticultores, temos uma área significativa de vinha, temos 65 produtores de vinho e fomos eleitos este ano como a “Cidade Europeia do Vinho” e, portanto, estamos a fazer um trabalho grande na promoção dos nossos enoturismos e dos nossos vinhos.

Quais foram os objetivos da participação nesta edição do “Portugal Nação Global”?

O objetivo é mostrarmos o território e atrairmos investimentos, portanto, felizmente no Baixo Alentejo nos últimos anos tem havido fortes investimentos, essencialmente no setor agrícola e agroindustrial, portanto, nós atualmente na parte da plantação temos quase 100 mil hectares de regadio no Baixo Alentejo, muito dele marcado por culturas permanentes e, essencialmente, olival, também amendoal. Depois, a vinha, para além da vinha que já tínhamos, agora com o regadio do Alqueva nos últimos anos, tem vindo a aumentar a sua eficiência e eficácia e, portanto, maiores produções e também novas plantações de vinha. O vinho também é um setor que está ali muito vivo e o vinho também é muito interessante do ponto de vista turístico. Os enoturismos já têm um peso significativo no território. Temos também ali um conjunto de unidades hoteleiras nos últimos anos que têm vindo, algumas maiores, como é o caso do Grupo Vila Galé, que aumentou substancialmente a oferta que tinha no território, mas também o Holliday Inn, que abriu agora uma unidade de “4 estrelas” em Beja. Abriu também um hotel de “5 estrelas”, um boutique-hotel virado também para o vinho que é a Quinta do Paral, irá abrir um outro hotel de “5 estrelas” este ano também noutro ponto do território. Portanto, temos ali uma oferta interessante e, do ponto de vista do investimento, a parte turística, se calhar, é a que mais releva para além, naturalmente, daquela virada para a agricultura ou para a agroindústria.

E o investimento feito pela diáspora na região?

O investimento da diáspora é muito bem-vindo. Aliás, temos lá excelentes exemplos de investimento da diáspora, temos uma excelente unidade que, entretanto, também já foi transacionada, mas foi instalada por um emigrante que esteve na África do Sul muitos anos e que, junto à Vidigueira, instalou uma vinha com muitos hectares, que é o “Ribafreixo Wines”, e que atualmente está no grupo da “Quinta da Pacheca”. Curiosamente, trouxe uma casta da própria África do Sul que se adaptou aqui muito bem ao nosso território e que até têm feito alguns vinhos brancos de monocasta, mas que não trouxe apenas o investimento, também o conhecimento que tinha da área dos vinhos que trabalhava na África do Sul.

Qual é a estratégia para atrair este investimento da Diáspora?

Temos organizado, a nível interno, uma rede dos gabinetes de Apoio, Desenvolvimento e Económico dos 13 municípios que compõem a nossa Comunidade Intermunicipal. Estamos a trabalhar também na capacitação das próprias áreas de acolhimento empresarial e, portanto, identificando as oportunidades que existem, os lotes disponíveis para podermos também trazer este tipo de investimento e depois participamos também noutros eventos, nomeadamente em Espanha, mais na parte turística, para podermos também divulgar e tentarmos também atrair algum investimento para o território.

Há algum país ou região que se distingue mais neste investimento?

Não, temos ali investidores, e também alguns investidores estrangeiros, temos muitos investidores que vêm de Espanha, especialmente na área do olival, na área dos vinhos temos, com investimentos muito fortes, pessoas da Suíça, da Alemanha.

Mas não são portugueses?

Temos alguns, mas não temos muitos exemplos de investidores portugueses que tenham regressado e investido aqui no nosso território.

Em termos de saídas desta região, como tem sido o movimento?

Nós temos zonas que, alguns dos concelhos, por exemplo, Castro Verde, Almodóvar e até Ourique, muita emigração dá há uns anos mais antigas para França, para a Suíça, para a Alemanha, principalmente para esses países. Agora, os jovens que têm vindo também a sair, muitos deles vão para a Inglaterra, para a Suíça também, para trabalhar às vezes na parte da saúde e na parte das tecnologias também; Irlanda também, para além daquele emigrante característico que era mais comum nestes países, a França, a Suíça e a Alemanha eram sempre aqui os países mais fortes dos nossos portugueses quando escolhiam a saída para o estrangeiro.

E tem havido muitos regressos?

Tem havido muitos regressos. Alguns que reinvestiram também no nosso território, com pequenos negócios, muitos deles, aproveitando já, muitas vezes, situações de reforma ou pré-reforma, mas parece-me que as novas gerações tornam-se mais difíceis, desde que os filhos começam a crescer nos países de acolhimento e começam a frequentar o ensino e depois de lá vão para o ensino superior e começam a trabalhar, constituem família, é mais difícil também os pais e os avós regressarem para poderem vir para a terra, no fundo, que era sempre esse o objetivo que norteava os primeiros emigrantes. Nós temos muitos exemplos das pessoas que fazem a sua casa cá. Os mais novos já não é mais assim. Portanto, muitos deles ficam, até porque hoje a vida está mais volátil, as viagens são mais fáceis do que eram. Antes era uma aventura, as pessoas iam de carro não sei quantos dias, e vinham. Hoje, facilmente, com os fenómenos mais recentes das “low costs”, é muito fácil as pessoas deslocarem-se. O que também dá aqui alguma possibilidade de haver esta mobilidade, em vez de as pessoas virem definitivamente, não, fazem períodos, fazem estadas mais ou menos prolongadas e vão-se dividindo. Às vezes, até as pessoas menos novas, também de acordo com o tempo, com o clima, vão aproveitando o melhor dos dois mundos.