Ao longo dos últimos anos, no contacto direto com mercados internacionais, tenho escrito e refletido sobre vinho, enoturismo e posicionamento estratégico do setor.
Tenho abordado tendências internacionais, sustentabilidade, inovação tecnológica, posicionamento estratégico e desafios do setor, mas reconheço que nunca escrevi sobre a importância do papel dos portugueses espalhados pelo mundo na promoção do vinho português enquanto produto de qualidade equiparável às grandes regiões vitivinícolas internacionais.
Hoje, considero não apenas oportuno, mas estrategicamente necessário abordar este tema de forma clara, estruturada e com visão internacional.
Num momento em que o setor enfrenta desafios globais que vão das alterações climáticas à transformação dos hábitos de consumo, há uma força extraordinariamente relevante que pode influenciar decisivamente a afirmação internacional dos nossos vinhos: a diáspora portuguesa.
Portugal afirmou-se como produtor de excelência, regiões como o Douro, o Alentejo, o Dão e os Açores conquistaram reconhecimento sustentado na qualidade, na diversidade de castas autóctones e numa identidade vínica própria.
Os nossos vinhos são hoje comparáveis, em rigor técnico, identidade e expressão de terroir, às mais prestigiadas regiões vitivinícolas internacionais, afirmando Portugal como origem de referência e não apenas como alternativa.
Contudo, num mercado global altamente competitivo, produzir qualidade não basta. É essencial comunicar, posicionar e criar reputação consistente nos mercados internacionais.
Os portugueses na diáspora não são apenas consumidores ligados emocionalmente às suas origens. são empresários, restauradores, sommeliers, importadores, distribuidores e líderes comunitários. São agentes económicos integrados e respeitados nas sociedades onde vivem.
Em cidades como Paris, Toronto, Newark, Londres ou São Paulo, encontramos exemplos consistentes de portugueses que promovem ativamente vinhos nacionais, não apenas junto das comunidades lusas, mas junto do consumidor internacional exigente.
Este papel é determinante. Porque o comércio internacional constrói-se com base na confiança, e a confiança nasce muitas vezes da proximidade cultural, da recomendação credível, da relação pessoal.
Quando um empresário português no estrangeiro decide incluir vinhos nacionais na sua oferta, está a fazer mais do que uma escolha comercial, está a afirmar qualidade, está a posicionar Portugal ao nível das grandes regiões vitivinícolas globais, está a reforçar a perceção de valor.
Vivemos uma era em que o consumidor procura autenticidade, quer saber de onde vem o produto, quem o produz, qual a sua história. Portugal tem argumentos sólidos: diversidade única de castas, tradição secular, inovação crescente e compromisso com a sustentabilidade.
Os portugueses espalhados pelo mundo são esses intérpretes naturais, falam a língua do país de acolhimento, compreendem os hábitos de consumo locais e, simultaneamente, mantêm uma ligação emocional à sua origem. Têm credibilidade para afirmar, com conhecimento e convicção, que o vinho português é um produto de excelência, perfeitamente equiparável às grandes referências internacionais.
Importa sublinhar também o papel da nova geração de luso-descendentes: profissionais altamente qualificados, com formação internacional, domínio digital e visão estratégica, esta geração pode ser decisiva na consolidação da reputação de excelência do vinho português nos mercados internacionais.
Redes informais de embaixadores, eventos de promoção, provas comentadas, presença em feiras e integração ativa em cadeias de distribuição são instrumentos poderosos quando suportados por quem conhece simultaneamente a cultura portuguesa e o mercado local.
Importa, contudo, compreender que o conceito de “embaixador” do vinho português, muitas vezes atribuído de forma informal a profissionais que atuam internacionalmente, implica uma responsabilidade acrescida, representar, promover e posicionar Portugal no exterior, seja através da consultoria, da promoção ou da presença institucional, exige equilíbrio, rigor e credibilidade. A visibilidade internacional valoriza a marca país, mas também aumenta o escrutínio e a responsabilidade de quem assume, direta ou indiretamente, esse papel.
Se anteriormente considerei este papel como algo implícito, hoje considero fundamental torná-lo explícito e merecedor de reconhecimento.
A diáspora portuguesa sempre foi sinónimo de trabalho, resiliência e capacidade de integração, no setor do vinho, pode e deve ser também sinónimo de diplomacia económica e cultural.
Cada garrafa promovida, cada carta de vinhos que integra referências nacionais, cada recomendação feita com convicção contribui para fortalecer a marca Portugal.
O vinho português tem qualidade reconhecida, tem diversidade, identidade e competitividade. Com o envolvimento ativo dos portugueses espalhados pelo mundo, tem também a rede humana necessária para consolidar a sua posição entre as grandes referências vitivinícolas internacionais.
É tempo de reconhecer, valorizar e estruturar esse papel.
É tempo de reconhecer, valorizar e estruturar este papel de forma estratégica, transformando a diáspora não apenas numa comunidade de ligação emocional, mas num verdadeiro ativo internacional para a afirmação do vinho português.
Num contexto global cada vez mais competitivo, a credibilidade de quem promove o vinho português no exterior torna-se tão relevante quanto a qualidade do próprio produto.
