Investigadores do CeNTI (Centro de Nanotecnologia e Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes) desenvolveram uma bio sílica obtida a partir de resíduos de biomassa, como casca e palha de arroz, capaz de conferir repelência à água, maior resistência ao fogo e propriedades antimicrobianas a diversos materiais. A informação foi avançada pelo Agroportal e pela revista Agrotec, que acompanharam os progressos desta investigação portuguesa.

A sílica é um composto amplamente utilizado na indústria, mas a sua produção convencional depende de processos químicos intensivos e com elevado consumo de energia. A alternativa criada pelo CeNTI parte de resíduos agroindustriais ricos em silicatos, permitindo um processo mais sustentável. Nos ensaios realizados, a casca e a palha de arroz destacaram-se como as matérias-primas com maior rendimento de extração.

Depois de obtida, esta sílica de origem biológica é modificada no laboratório piloto do CeNTI, o único no país com capacidade de produção deste tipo em escala piloto, para adquirir funcionalidades avançadas. A bio sílica resultante pode tornar superfícies hidrofóbicas, aumentar a retardância de chama e reduzir a proliferação de bactérias. Estas propriedades passam, depois, para os materiais onde o aditivo é incorporado, como polímeros, espumas ou revestimentos.

Segundo os investigadores, as aplicações industriais são vastas. Na indústria automóvel, pode ser integrada em têxteis e espumas usadas em interiores de veículos; na área têxtil, pode reforçar estofos, colchões ou materiais sujeitos à humidade; na construção, pode melhorar o desempenho de espumas de isolamento com maior segurança contra incêndios.

O desenvolvimento desta bio sílica enquadra-se em estratégias de bioeconomia e valorização de resíduos, como o projeto PRIMED, que visa transformar biorresíduos em produtos de base biológica com maior valor acrescentado. A metodologia permite reduzir o uso de químicos agressivos, diminuir o consumo energético e aproveitar fluxos de resíduos agrícolas e florestais.

O CeNTI disponibiliza esta tecnologia para empresas interessadas em testar a incorporação da bio sílica funcional nas suas formulações, podendo também avaliar outros tipos de resíduos, incluindo cinzas de caldeiras de biomassa. O centro destaca ainda que a solução pode substituir a sílica sintética em grande parte das suas utilizações atuais, contribuindo para uma indústria mais sustentável e inovadora.