Num contexto global marcado por tensões geopolíticas, o acordo representa raro movimento de abertura económica em larga escala. Quais os países – e empresas – que vão conseguir posicionar-se primeiro dentro deste novo mapa económico, é a questão.
Durante mais de duas décadas, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia foi visto como uma ambição distante. Em 2026, depois de mais de 25 anos de negociações, tornou-se finalmente uma realidade política – ainda em fase de ratificação, mas já com impacto económico antecipado. O que está em causa não é apenas mais um tratado comercial, mas a criação de uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, envolvendo cerca de 700 milhões de consumidores, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, a SEBRAE.
Para Portugal, este acordo pode representar uma oportunidade estratégica rara – simultaneamente europeia e atlântica.
O impacto potencial do acordo é significativo. O tratado prevê a eliminação progressiva de tarifas sobre cerca de 91% dos produtos europeus exportados para o Mercosul e cerca de 92% das exportações do bloco sul-americano para a União Europeia, segundo o site SeuDinheiro.Com. Ao longo de uma década, isso traduz-se numa redução substancial dos custos de comércio, maior previsibilidade regulatória e aumento dos fluxos de investimento.
Estudos do faculdade Insper apontam para um crescimento adicional do PIB brasileiro até cerca de 0,46% no longo prazo, com ganhos também para o comércio bilateral, incluindo um aumento das exportações brasileiras para a Europa entre 2% e 7%. Mais do que os números absolutos, o essencial é a mudança estrutural: o acordo cria um quadro estável e previsível que tende a atrair investimento estrangeiro e a integrar cadeias de valor entre os dois blocos.
É neste ponto que Portugal pode ganhar relevância.
Dentro da União Europeia, Portugal tem características únicas para se posicionar como porta de entrada para empresas brasileiras. A língua comum, a proximidade cultural e uma longa história de relações económicas reduzem custos de adaptação e facilitam a internacionalização. Num contexto de abertura comercial, estes fatores tornam-se ainda mais valiosos.
Mas o movimento também pode funcionar no sentido inverso.
Empresas brasileiras que queiram entrar no mercado europeu enfrentarão um espaço regulatório exigente e altamente competitivo. Portugal pode funcionar como plataforma inicial – não apenas como mercado de destino mas como base de instalação, teste e expansão para o resto da União Europeia.
Esse papel não é automático, mas é plausível. Países que conseguem posicionar-se como “pontos de entrada” beneficiam desproporcionalmente de fluxos de investimento, serviços jurídicos, consultoria, logística e operações regionais. Num acordo desta escala, esses efeitos podem ser relevantes.
Para empresas portuguesas, o Brasil surge como uma escala natural de crescimento num mercado que tende a tornar-se mais acessível e integrado com a Europa. A redução de tarifas, combinada com maior previsibilidade regulatória, pode diminuir barreiras históricas à entrada.
Num mercado com mais de 200 milhões de consumidores, o Brasil oferece algo que a maioria das economias europeias já não tem: escala. Para empresas portuguesas com ambição de crescimento, pode deixar de ser apenas um mercado externo e passar a ser uma extensão estratégica.
O acordo, no entanto, não elimina riscos. Durará anos a ganhar forma e o impacto dependerá da capacidade das empresas – e dos próprios países – de se adaptarem à concorrência e aproveitarem as novas condições de acesso ao mercado. Além disso, o processo de ratificação na União Europeia continua sujeito a pressões políticas e jurídicas que podem atrasar a sua entrada em vigor.
Ainda assim, a direção é clara.
Num contexto global marcado por tensões comerciais e fragmentação geopolítica, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia representa um raro movimento de abertura económica em larga escala. Para Portugal, isso cria uma oportunidade dupla: posicionar-se como ponte de entrada de empresas brasileiras na Europa e, ao mesmo tempo, usar o Brasil como plataforma de crescimento fora do espaço europeu.
Quais países – e empresas – vão conseguir posicionar-se primeiro dentro deste novo mapa económico é a questão.
Cartas do Brasil por João Almeida Morais
