Ao longo de mais de duas décadas a trabalhar na área de gestão de risco, aprendi algo que continua a surpreender-me: Portugal tem mais medo de arriscar do que muitos dos países onde os portugueses prosperam.
Quando um português emigra, raramente o faz por gosto do risco. Fá-lo, quase sempre, por necessidade – económica, profissional ou familiar. Paradoxalmente, muitos dos que saem acabam por trabalhar em empresas e contextos onde o risco é não só aceite, mas incentivado.
Essa diferença cultural merece reflexão.
Em Portugal, a palavra “risco” tem quase sempre uma conotação negativa. Associa-se a imprudência ou instabilidade. Mas risco significa apenas uma coisa: incerteza sobre o resultado de uma decisão. E sem decisões com incerteza não existe inovação, crescimento ou criação de valor.
Trabalhar em gestão de risco ensinou-me algo essencial: eliminar risco é impossível. O que é possível é medi-lo, compreendê-lo e decidir conscientemente quanto e em que circunstâncias estamos dispostos a assumir. A questão não é eliminar o risco. É saber geri-lo e mitigá-lo, até parece simples.
Em muitos dos países onde trabalhei, a pergunta central não era “como evitamos qualquer erro?”, mas sim “que riscos vale a pena assumir para crescer?”. A diferença parece subtil, mas muda completamente a forma como organizações e economias evoluem.
Muitos membros da diáspora vivem em países onde falhar não é um estigma permanente. No Reino Unido, nos Estados Unidos ou em várias economias do Norte da Europa, um insucesso empresarial é frequentemente visto como aprendizagem. Curiosamente, também trabalhei em contextos onde o risco é visto de forma muito negativa, como em algumas economias do Golfo. Quando algo corre mal, a prioridade tende a ser encontrar responsáveis em vez de aprender com o erro. Essa diferença cultural ajuda a explicar porque é que a gestão do risco pode acelerar – ou travar – o progresso. Ao longo de mais de duas décadas a trabalhar na área de risco no setor financeiro, em diferentes contextos internacionais, aprendi uma lição simples: o risco não é o inimigo do crescimento – é a sua condição. Curiosamente, foi fora de Portugal que percebi isso com maior clareza.
Em Portugal, o falhanço tende a ser definitivo – reputacional e socialmente. Esse detalhe cultural tem impacto económico. Se o custo social de errar for demasiado elevado, as pessoas evitam tentar. E quando evitam tentar, o país estagna. Portugal continua a privilegiar a estabilidade sobre a mobilidade. O emprego público é visto como porto seguro. O contrato sem termo continua a ser o ideal absoluto. A mudança de carreira é, muitas vezes, interpretada como instabilidade.
Nada disto é errado em si mesmo. O problema surge quando a segurança se transforma em bloqueio à evolução e se torna em estagnação. Muitos portugueses no estrangeiro descobrem precisamente o contrário: carreiras mais flexíveis, maior mobilidade, maior recompensa para quem assume iniciativa.
Por outro lado, a economia portuguesa é dominada por pequenas e médias empresas. Muitas são sólidas, resilientes e bem geridas. Mas também tendem a ser conservadoras. Esta prudência excessiva reduz a capacidade de crescimento. Num mundo globalizado, competir exige assumir riscos calculados.
Existe ainda uma dimensão institucional. Em Portugal, a decisão pública é frequentemente defensiva. Prefere-se evitar erro a criar valor. Multiplicam-se pareceres, autorizações e camadas regulatórias acumulando desnecessária burocracia. O resultado é um sistema que reduz a probabilidade de falhas graves, mas também abranda decisões e respostas quando surgem crises, algo que temos visto em vários momentos recentes no país.
A própria diáspora portuguesa é prova de que o talento nacional não é avesso ao risco. Pelo contrário. Milhares de portugueses prosperam fora do país porque operam em ecossistemas onde o mérito é mais rapidamente reconhecido. O problema, portanto, não é genético nem estrutural. É cultural e institucional.
Um país excessivamente avesso ao risco paga um preço silencioso, como por exemplo uma produtividade limitada. A longo prazo, o maior risco torna-se precisamente a tentativa de evitar risco. Não se trata de promover imprudência. Trata-se de reequilibrar a relação com a incerteza e isso implica algumas alterações que poderei aprofundar numa outra vez. A diáspora pode, portanto, desempenhar aqui um papel relevante, trazendo experiências, práticas e mentalidades adquiridas no exterior.
Esta atitude tem consequências económicas reais. Segundo dados do Eurostat, a produtividade portuguesa continua abaixo da média da União Europeia e o investimento em investigação e desenvolvimento ronda cerca de 1,6-1,7%% do PIB – bastante distante das economias mais inovadoras (por exemplo Alemanha ou Países nórdicos) que ultrapassam os 3%. O crescimento potencial da economia portuguesa tem sido estruturalmente moderado há décadas.
Portugal não sofre de falta de talento. Sofre, muitas vezes, de excesso de cautela. Também não é um país sem recursos. Mas é, muitas vezes, um país que penaliza excessivamente quem tenta e demasiado burocrático. E num mundo em rápida transformação, o verdadeiro perigo não é arriscar. É ficar parado.
Por João Camarão
