Cinco séculos volvidos sobre a vida de Afonso de Albuquerque, vice-governador das Índias e invulgar estratega que demonstrou a enorme importância que o estreito de Ormuz tem para o domínio do mar Arábico e, nesse contexto, para o comércio mundial, possibilitando que Portugal tivesse então uma influência marcante nessas paragens, a mais de dez mil quilómetros de Lisboa, sede do reino, os factos recentes no Irão vêm confirmar essa importância.

Afonso de Albuquerque contribuiu, por isso, para promover a edificação de várias fortalezas, desde logo em Ormuz.

Os recentes acontecimentos resultantes da guerra que se desenvolve no Irão, e que acabou por se estender a toda a região, colocando o mundo num verdadeiro alvoroço, comprovam a relevância desse estreito para quem detém a chave da sua entrada.

O facto de pelo estreito de Ormuz transitar cerca de 20% do petróleo mundial, bem como uma percentagem significativa de gás, tendo em conta que o Qatar é um dos maiores produtores mundiais, traduz as graves consequências do impacto global, sobretudo pela forma como os preços se formam em função da lei da oferta e da procura.

Esse impacto afeta não apenas o custo da energia, mas também o de todos os bens de consumo, incluindo os alimentares, devido ao aumento dos custos associados ao transporte e à conservação.

Sendo prioritário que a guerra cesse em condições que garantam o restabelecimento de um novo equilíbrio, tanto mais que nenhuma guerra se eterniza, importa avaliar, no quadro atual, como evoluirá a competitividade do comércio internacional após o seu término.

Este enquadramento torna-se particularmente relevante face ao facto de a China, país que o Presidente Trump considera o principal adversário dos Estados Unidos no comércio global, ter priorizado o reforço orçamental para 2026 na ciência e na tecnologia, com um aumento de 10% em relação a 2025, valor significativamente superior ao destinado à Defesa e Segurança.

Em simultâneo, a China aprovou, na Assembleia Popular que decorreu entre 5 e 13 de março, um plano quinquenal com vista ao reforço do PIB para o dobro.

Foi ainda significativo o anúncio do Presidente Xi Jinping, na 36.ª Assembleia da União Africana, realizada a 14 de fevereiro de 2026, relativo à isenção de tarifas alfandegárias sobre as importações provenientes de 53 países africanos, com exceção da Suazilândia, atualmente Eswatini, por este país reconhecer Taiwan, território que a China considera parte integrante.

Este conjunto de medidas sugere que a China, ao reforçar de forma significativa o investimento em ciência e tecnologia, procura não apenas acelerar o seu desenvolvimento interno, mas também ganhar vantagem na competitividade comercial face aos Estados Unidos, mantendo simultaneamente a sua posição relativamente a Taiwan.

Perante este cenário, a União Europeia, que detém uma das maiores zonas comerciais à escala global, não pode deixar de acelerar o seu posicionamento em todos os domínios onde tem perdido competitividade, a par do reforço da sua autonomia estratégica, nomeadamente no domínio da Defesa.

 

Vitor Ramalho

 

 

Lusofonia por Vitor Ramalho