A Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo participou no “Portugal Nação Global” com uma estratégia centrada na promoção internacional do território e na aproximação à diáspora portuguesa. O encontro, realizado no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no final de abril, reuniu representantes institucionais, empresários e membros das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo para debater temas ligados ao investimento, economia, inovação e cooperação entre Portugal e a diáspora.

Em entrevista à Diáspora Lusa, Joaquim Diogo, presidente da Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo, destacou as potencialidades de um território marcado pela diversidade geográfica, pela força do setor agroalimentar, pelo crescimento da aeronáutica em Ponte de Sor e pela aposta no tratamento de dados e inteligência competitiva. O responsável sublinhou ainda o impacto de projetos estruturantes em curso, como a construção de uma barragem associada a milhares de hectares de regadio, apontando o setor primário como uma das áreas estratégicas para o futuro da região.

Ao longo da conversa, Joaquim Diogo abordou também os desafios demográficos enfrentados pelo Alto Alentejo, nomeadamente a saída de jovens qualificados e a dificuldade de retenção de talento. O autarca defendeu a necessidade de criar projetos âncora capazes de gerar emprego qualificado e transformar o território numa escolha permanente para viver e investir. A ligação emocional da diáspora ao país, inspirada em exemplos empresariais como o legado de Rui Nabeiro, foi igualmente apontada como um fator determinante para atrair novos investimentos para a região.

Como caracteriza a Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo?

Somos 15 municípios, um território bastante alargado e diversificado, temos desde a planície à Serra, temos também a parte de rio, ainda temos uma parte do território que toca no Rio Tejo, e, portanto, somos bastante diversificados naquilo que é o território. Os 15 municípios têm diferentes tipologias, e, portanto, somos, de facto, um território do interior do país, mas que, neste momento, tem já alguns projetos de âncora que são muito interessantes.

Quais foram os objetivos da participação nesta edição do “Portugal Nação Global”?

Acima de tudo, nós fizemos uma estratégia de divulgação daquilo que nós achamos, ao momento, que podem ser os nossos pontos fortes. Nós temos um posicionamento muito interessante relativamente àquilo que é, por exemplo, a aeronáutica, com o polo de Ponte de Sor, onde tem um grande investidor que é a Takever, é um unicórnio na área da aeronáutica sem piloto, portanto, não pilotada, e, portanto, muito na área da vigilância. Depois, nós fizemos aqui outra estratégia que tem a ver com criar uma “Tier 1”, por exemplo, relacionada com o setor primário, porque nós temos um grande projeto de mais de 200 milhões de euros, que é a construção de uma barragem, acoplada a ela, tem também cinco mil hectares de regadio, mais os restantes hectares de regadio, nós vimos isto como uma potencialidade no setor da produção agrícola, agropecuária também, para podermos, no futuro, eventualmente sermos um dos principais fornecedores ao nível deste mercado. Depois, temos também uma área que é reconhecida por todos, que é o nosso turismo, a nossa parte de monumentos, que é muito forte, e, portanto, a nossa gastronomia naturalmente, desde o borrego às doçarias, pegando também aqui muito numa ferramenta que é a ferramenta dos dados. Nós já temos um centro de inteligência competitiva no nosso território, mas queremos alargar esta estrutura para outras áreas, desde a saúde, educação, para nos tornarmos mais competitivos na área do tratamento de dados e aproveitar esses dados para fazer crescer a região.

Como é que os portugueses da diáspora podem ajudar e aproveitar essas potencialidades?

A nossa inspiração é o comendador Rui Nabeiro, que, do pouco, fez muito, fez um grupo internacional, a Delta Cafés, que todos conhecem no mundo, e, portanto, digamos que às vezes com uma pequena carrinha e com uma cabeça cheia de sonhos e de vontades, se consegue transformar. Nós estamos aqui numa perspetiva de mostrar aquilo que é o nosso território. Eu penso que, de algumas conversas que já fui tendo com investidores que estiveram presentes, também há aqui uma grande vontade de conhecer e de fazer acontecer também nos territórios. Porque muitos deles têm um compromisso muito grande com Portugal, porque foi também alguns deles a sua origem ou a grande parte deles é a sua origem. E, portanto, havendo capacidade de investimento, sendo casos de sucesso noutros países, trazer um bocadinho dessa capacidade e desse investimento novamente para o país. É apelar a uma coisa que é caso de sucesso e ao coração, ao sentimento de poderem também aproveitar aquilo que é um Portugal diferente. Ao fim e ao cabo, é um Portugal diferente, que, eventualmente, pelos anos que se desligaram de Portugal, podem já não conhecer tão bem. O Alto Alentejo não é o mesmo Alto Alentejo de há 30 anos ou 40 anos. E é isso que nós estamos aqui a mostrar a todos.

Está a ser feito investimento por parte dos portugueses da diáspora na região? Que avaliação faz?

Penso que eles, neste momento, estão muito centrados na componente turística, na hotelaria, e também nalguns investimentos já na área das renováveis, na parte da energia. Nós gostaríamos de diversificar um pouco mais pelo setor primário, na parte agrícola e transformação de produtos, e gostaríamos também de dar a conhecer, porque achamos que é muito apelativo, a questão da aeronáutica e dos dados. Acho que era muito importante. Nós queremos ter um ou dois grandes centros de tratamento de dados na região do Alto Alentejo, aproveitando um bocadinho a energia que vai ser colocada em Sines. E, portanto, acreditamos que, com tanto de investimento que vai existir em Sines, de certeza que vai sobrar uma pequena fatia para colocarem em projetos muito específicos e que sejam muito apelativos noutras regiões. E é também este estímulo que nós trazemos aqui.

Em termos de saídas de portugueses desta região, como tem sido o movimento?

Nós temos, de facto, muita gente a sair do nosso território, principalmente aqueles que têm mais formação, e, portanto, digamos que é uma dupla preocupação. Não só a saída das pessoas, mas saída de pessoas já com muita formação. Temos uma Universidade Politécnica com muita capacidade, diria que, no cômputo geral, nós temos mais de 50 cursos disponíveis e a capacidade de retenção é abaixo de 10%. E, portanto, desse ponto de vista, é, de facto, dramático nesse sentido. E, portanto, temos que ter projetos âncora que, de alguma forma, deem oportunidades a quem se formou, a quem sonha com este território e tem sentimento por este território, de se manterem e de atraírem outras pessoas. Não podemos ser a segunda habitação de muitas pessoas. Temos que, de facto, passar para o território de primeira escolha.

Também têm registado alguns regressos?

Sim, mas muito, era aquilo que dizia, são muitos como segunda alternativa. Vêm para descansar, vêm para recuperar a casa de família, vêm para usufruir da nossa tranquilidade, da nossa segurança. Somos um território muito seguro ainda, mas depois são muito sazonais e essa sazonalidade não ajuda àquilo que esta região precisa, que é, de facto, um impulso extraordinário e uma visão, digamos que vertical para esta situação, e não só pequenas migalhas. Nós precisamos, de facto, de muito investimento, precisamos de grande investimento na área das infraestruturas, precisamos de grandes investimentos na área de grandes projetos que obriguem a que grandes volumes de pessoas fiquem no território durante algum tempo para podermos, depois, dar o passo seguinte dessas pessoas que permanecerem no território.