Com o PIB do país a crescer razoavelmente e o orçamento das famílias de classe média emergente a subir aos poucos, as oportunidades para empresas, sobretudo portuguesas, florescem
Durante anos, muitas empresas europeias olharam para o Brasil com interesse, mas também cautela. Crises económicas, turbulência política e a recessão provocada pela pandemia criaram um ambiente de incerteza que travou investimentos. O cenário começa a mudar.
Em 2025, o PIB do país cresceu cerca de 2,3% e o desemprego caiu para 5,6%, na média anual, o mais baixo desde 2012; em 2024, o crescimento fora de 3,4%; e, em 2023, de 2,9%. Não é um crescimento explosivo mas é consistente, depois de anos de volatilidade.
Para empresas portuguesas que procuram novos mercados fora da Europa, este novo ciclo económico no Brasil abre uma janela de oportunidades: afinal, o país tem um mercado consumidor de escala continental, o maior da América Latina, com mais de 200 milhões de habitantes e uma economia altamente orientada para o consumo interno.
Nos últimos anos, políticas sociais reforçadas pelo governo de Lula da Silva ajudaram a sustentar o rendimento de milhões de famílias, enquanto o Banco Central do Brasil iniciou um ciclo de redução gradual das taxas de juro, o que gerou maior acesso ao crédito, aumento da capacidade de consumo das famílias e a expansão da nova classe média emergente, a Classe C, como é normalmente chamada.
Esta aposta não é nova nos governos Lula, que já de 2003 a 2010 optaram por reforçar esse setor da sociedade. Mas a Classe C de hoje tem um perfil diferente da do início do século – forte utilização de tecnologia digital, elevado uso de pagamentos instantâneos e fintechs, maior procura por serviços e experiências.
Nessa perspetiva, setores como educação privada, turismo, serviços financeiros, comércio digital e entretenimento têm se beneficiado diretamente desta transformação.
Para empresas portuguesas com modelos de negócio escaláveis, esta nova classe média representa um mercado em expansão nalguns setores.
Na energia, o Brasil possui uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo.
Na infraestrutura, a dimensão continental do país exige investimentos massivos em logística, transportes e saneamento.
No turismo, o país procura atrair mais visitantes internacionais .
Na tecnologia e inovação, o Brasil tornou-se o maior ecossistema de startups da América Latina.
Entretanto, Portugal tem, por razões históricas, culturais e linguísticas, uma vantagem estrutural que facilita negociações empresariais, adaptação de produtos e serviços e construção de parcerias locais que podem reduzir significativamente as barreiras de entrada.
Com uma economia a recuperar, uma classe média em crescimento e setores estratégicos em transformação, o país oferece, portanto, oportunidades para empresas dispostas a investir com visão de longo prazo.
A questão já não é se o Brasil tem potencial. A questão é quantas (e quais) empresas portuguesas estão preparadas para pensar à escala de um mercado de 200 milhões.
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Cartas do Brasil por João Almeida Moreira
