A Comunidade Intermunicipal do Douro participou no “Portugal Nação Global” com o objetivo de “reforçar a ligação à diáspora portuguesa e promover novas oportunidades de investimento no território duriense”. O encontro, realizado no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no fina do mês de abril, reuniu representantes institucionais, empresários e comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo para debater estratégias ligadas à internacionalização, desenvolvimento regional e cooperação económica.

Em entrevista à Diáspora Lusa, João Rodrigues, primeiro secretário executivo da Comunidade Intermunicipal do Douro, destacou a dimensão territorial da região, composta por 19 municípios distribuídos entre as margens direita e esquerda do rio Douro, desde a fronteira com Espanha até ao Tâmega e Sousa. Este responsável defendeu a necessidade de criar condições estruturais para acolher investimento, sublinhando a importância da qualificação dos serviços municipais, da melhoria das acessibilidades e da criação de uma futura agência de investimento dedicada ao território.

Ao longo da conversa, João Rodrigues apontou o património classificado pela UNESCO, os vinhos do Douro e do Porto, os produtos endógenos e o turismo como alguns dos principais ativos da região. O dirigente reconheceu igualmente os desafios demográficos enfrentados pelo Douro, historicamente marcado pela emigração, defendendo a criação de condições para fixar jovens qualificados e incentivar o regresso de portugueses da diáspora. Entre as prioridades atuais estão ainda o reforço das telecomunicações, a agricultura de precisão e a criação de novas oportunidades ligadas à economia digital e ao conhecimento.

Como caracteriza a Comunidade Intermunicipal do Douro?

É a maior CIM do país, com 19 municípios, com uma área superior a 4.000 km², abrange municípios da margem direita e da margem esquerda do Douro, desde Espanha até ao Tâmega e Sousa.

Quais foram os objetivos da participação nesta edição do “Portugal Nação Global”?

A participação neste evento decorreu de um desafio que nos foi lançado a partir do Ministério dos Negócios Estrangeiros e que quisemos estar, aliás, o Douro não pode deixar de estar por todas as razões e porque nos parece também, e temos bem a noção de que este é um caminho que todos nós temos de fazer. Aliás, nós, CIM Douro, em vários eventos que vamos participando, quer a nível nacional, quer internacional, privilegiamos precisamente esta parceria com quem está fora, com as nossas pessoas que estão na diáspora, no fundo, para encontrar caminhos e criar rede para potenciar tudo que temos no nosso território, sempre numa ótica de investimento no mesmo território.

Qual a estratégia para atrair investimento da diáspora?

Em primeiro lugar, temos que arrumar a casa, quando dizemos isso, queremos dizer que necessitamos criar as condições que são aquelas básicas e outras que nos potenciam precisamente o que é que de bom tem o nosso território.

E o que é que de bom tem?

Muito, a dificuldade é por onde começar. Primeiro, porque é um território, acima de tudo, com segurança, com uma qualidade de vida bem melhor do que qualquer outro território a nível nacional, essencialmente os grandes centros. Hoje em dia, os nossos municípios vão tendo uma base ao nível das áreas de acolhimento empresarial, dos serviços que prestem e da informação que partilham com quem quer e quem nos bate à porta, já com um grau de profissionalismo muito superior. E é para aí que queremos andar: queremos andar à mesma velocidade, todos os municípios. Sabemos que, pela sua dimensão, pela sua estratégia, pela dinâmica que cada um tem, há municípios a velocidade diferentes, no entanto, a intenção da CIM Douro é tê-los a todos à mesma velocidade, ao mesmo nível, e trabalharmos todos juntos em escala, porque só ganhando escala é que podemos também estar de outra forma e com um potencial muito maior cá dentro e lá fora.

Que áreas é que identificam como as que têm maior potencial para o investimento da diáspora?

Para já, temos a História. Temos a história, quer em termos vitivinícolas: temos o Vinho do Porto, que é único, os vinhos Douro, que são únicos, um setor que tem evoluído imenso nos últimos anos, extremamente dinâmica. Temos outros produtos endógenos, nomeadamente a maçã, a castanha, a amêndoa, o azeite. Temos o território classificado pela Unesco, quer ao nível do território do ADV – Alto Douro Vinhateiro, temos o município de Vila Nova de Foz Côa, que integra a CIM Douro, também com uma classificação mundial da Unesco pelas gravuras do Côa. Hoje em dia, em termos de acessibilidades, embora ainda com algumas lacunas, demos um salto enorme a relação àquilo que era há 10 ou 15 anos. Estão criadas as condições bases para que as pessoas possam vir e investir. Queremos desburocratizar todos estes processos que, muitas vezes, são dos maiores entraves ao investimento, quer interno – nacional -, quer externo, porque as pessoas querem vir e querem que as coisas aconteçam rápido, mas também por todas estas características: pela classificação da história, pelas características próprias que o território tem, muitas vezes, encontramos estas burocracias que muito impedem que sejam mais céleres os processos de investimento. Algo que nos falta ainda é trabalhar o sinal das telecomunicações. Hoje, passamos pelo Douro e qualquer um de nós se apercebe que, em dados momentos, vamos ficando sem rede de telemoveis. Isto não pode acontecer. Estamos num projeto que vai abranger todos os municípios, financiado pela Comissão Europeia – é o primeiro a nível nacional -, que é precisamente para além da rede que já existe, que está a ser executada a nível nacional pelo próprio Governo, temos ainda zonas brancas e é essas que queremos acautelar, em que não temos rede, e é para aí que estamos a investir. No fundo, se queremos evoluir para uma agricultura de precisão, para, hoje em dia, termos um mundo global, temos de ter as telecomunicações e podemos conectar com quem quer que seja e, portanto, temos de ter uma boa rede de telecomunicações. Paralelamente, estamos aqui com um processo da criação de uma agência de investimento para o território e vamos ter isso nos próximos tempos, que estamos a tentar que seja o mais curto possível, mas também é um processo que já sabemos que é sempre um pouco moroso demais para aquilo que nós queremos. No entanto, vai acontecer e estamos a trabalhar todas estas questões em paralelo para que daqui a algum tempo se note que o espaço e o nosso território têm condições para acolher seja quem for e quem quer vir será vindo e que venha para bem.

Qual é o investimento da diáspora no vosso território?

Hoje em dia, vamos tendo outras condições que não tínhamos. Agora, não podemos deixar de fazer este caminho do que referi e outras que tentamos agregar, criar rede, e, acima de tudo, partilhar informação. Vai-se notando cada vez mais, porque estão criadas cada vez melhores condições para que isso também aconteça. As acessibilidades para nós foi realmente algo de que mais levou a que esta evolução e esta procura seja cada vez maior do nosso território para o investimento e, essencialmente, da nossa diáspora.

Em termos de saídas, o vosso território é afetado? 

Dos mais afetados, desde sempre, quer de décadas, quer de gerações, e não deixa de acontecer ainda hoje. Se, em tempos, as pessoas que saíam era à procura de melhor vida, porque no território não tinham essa oportunidade de subsistência, até, hoje em dia, vemos fugir os nossos jovens que procuram e tiram formações superiores e que, atendendo ao nível também do nosso ensino, porque o nosso ensino a nível nacional é bom, de excelência a nível mundial, e porque os nossos jovens o adquirem, naturalmente, depois, há sempre a tendência de saírem para lugares onde tenham outras condições, quer de trabalho, quer financeiros, naturalmente. E nós sofremos como qualquer outro território do país com esse problema. Felizmente, vamos sinalizando já vários exemplos no nosso território de jovens que vão ficando, muito também fruto do que é hoje este mundo global, através das telecomunicações facilmente os jovens hoje, mesmo trabalhando para entidades externas na área das telecomunicações, do que seja, têm esta oportunidade de trabalhar no território.

E regressos?

Vamos tendo alguns, naturalmente. Também estamos a trabalhar muito isso nalgumas áreas, como a área social, da educação e da agricultura. Estamos a trabalhar também com outras comunidades intermunicipais, com a educação – a UTAD, os politécnicos que temos, o da Bragança, da Guarda e de Viseu que são os nossos parceiros na área da educação -, com as estruturas de Governo e da administração central algumas áreas, precisamente a preparar o regresso. E estamos a fazê-lo com candidaturas onde envolvemos os nossos colegas espanhóis que têm algumas questões, outras já as ultrapassaram e nós vamos aprender com eles, outras são eles que aprendem connosco, e, no fundo, partilhamos projetos-piloto e estamos a fazer também esse caminho, ou seja, preparar os nossos jovens e preparar, acima de tudo, condições para eles puderem vir, para se puderem fixar no nosso território e terem aqui um modo de vida de futuro, porque, no fundo, é isso tudo o que nós queremos.