Fernanda Ilhéu, presidente da Associação Amigos da Nova Rota da Seda (ANRS), é uma das vozes mais atentas ao aprofundamento das relações entre Portugal e a China, num quadro marcado pela iniciativa chinesa Faixa e Rota. À frente de uma associação sem fins lucrativos criada em 2016, lidera um think tank que aposta no conhecimento, na análise estratégica e na diplomacia da sociedade civil para promover a cooperação económica, científica, cultural e social entre Portugal, a China e terceiros países, com destaque para o espaço lusófono.

Nesta entrevista, Fernanda Ilhéu traça um retrato da evolução das relações bilaterais desde 1999, sublinha o papel de Macau como plataforma histórica e contemporânea desse relacionamento e detalha os objetivos, projetos e parcerias da ANRS. Num contexto internacional em transformação, a responsável reflete ainda sobre o posicionamento de Portugal na Nova Rota da Seda e a importância dos think tanks como laboratórios de ideias ao serviço do debate público e da decisão estratégica.

Quais os objetivos centrais das ações da Associação Amigos da Nova Rota da Seda?

O objetivo central é cooperar de uma forma proactiva na construção da iniciativa chinesa “Uma Faixa Uma Rota e a Nova Rota da Seda Marítima do Século XXI”, através do conhecimento, informação e divulgação de contributos válidos sobre a iniciativa e possíveis projetos de colaboração entre Portugal e a China e entre Portugal, a China e Terceiros Países, nomeadamente Países de Língua Portuguesa no âmbito dessa iniciativa. Nos dois primeiros anos da nossa atividade, 2017 e 2018, o objetivo foi refletir e partilhar conhecimento sobre esta iniciativa chinesa que tinha sido apresentada em Portugal, em 2015, pelas autoridades chinesas, mas cuja a importância na altura, passou despercebida à maior dos portugueses, além disso, a forma como esta iniciativa foi inicialmente percebida era muito limitada a uma cooperação para a construção de infraestruturas, sobretudo ferroviárias de ligação Eurasiática. No entanto, quando começamos a analisar os documentos oficiais chineses e os discursos do Presidente Xi Jinping, percebemos que eles apresentavam esta iniciativa como uma visão da China de em conjunto com os países, que com ela quisessem colaborar construírem rotas de desenvolvimento económico e civilizacionais globais, com um entendimento e uma aceitação multicultural e respeitando a Carta da Nações Unidas. Com esta perspetiva já mais alargada, foi também nosso objetivo nesses primeiros dois anos entender de que forma esta iniciativa podia ser importante para Portugal e saber como poderia Portugal estar nesta iniciativa e quais os setores de cooperação possíveis.

Os nossos associados constituíram grupos de reflexão e análise orientados por temáticas como: educação, ciência, inovação empreendedorismo, networks de think tanks Faixa e Rota; saúde e bem-estar; logística, transportes, infraestruturas e parques industriais, cluster do mar; comércio; financiamento de projetos, ligação dos instrumentos financeiros Faixa e Rota à EU; ligação entre os povos, cultura, arte, media, viagens. No final de 2017 apresentamos ao governo português através do Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros e do Secretário de Estado da Internacionalização o relatório sobre as conclusões e orientações para possíveis áreas de cooperação, esse relatório foi também entregue ao Embaixador da China em Portugal. Em 2018 colaboramos com a AICEP em vários projetos para o mercado chinês e sobretudo na resposta à questão de como poderia Portugal ser um país Faixa e Rota. Foi com grande alegria, que no final de 2018, tomamos conhecimento da decisão do governo português de assinar, com o governo chinês, o Memorando de Entendimento de Cooperação na Faixa Económica da Rota da Seda e na Rota da Seda Marítima do Século XXI. A partir dessa altura os objetivos que anualmente vamos fixando centram-se no acompanhamento e estudo de áreas de cooperação Portugal-China nomeadamente na Rota da Seda Terrestre, na Rota da Seda Marítima, Rota da Seda da Saúde, na Rota de Seda Verde, na Rota da Seda da Ciência, na Rota da Seda do Turismo, na Rota da Seda Digital, na Rota da Seda Espacial…

Quando e de que forma nasceu a Associação?

A Associação Amigos da Nova Rota da Seda (ANRS) foi formalmente registada em Lisboa no dia 21 de dezembro 2016, e é uma Associação com fins não lucrativos. O grupo de 21 sócios fundadores reuniu pessoas da sociedade civil, portuguesa e chinesa, que aderiram em nome pessoal e cuja motivação foi e é trabalhar para o desenvolvimento dos laços de amizade e cooperação entre a China e Portugal em várias áreas da atividade económica, cultural e social. O impulso para a criação da ANRS nasceu durante um almoço em Lisboa, que reuniu amigos, que tinham vivido em Macau, onde se falou sobre a importância desta iniciativa ao nível mundial e sobretudo como ela poderia potenciar a cooperação económica e comercial Portugal-China e a cooperação de ambos os países com os Países de Língua Portuguesa sobretudo os africanos e decidimos avançar com a dinamização de uma associação, por isso, esta associação se chama “Amigos da Nova Rota da Seda”.

Falamos com outros amigos, encontramos um grande apoio inicial de pessoas como, a Drª Filipa Arantes Pedroso, então partner da Morais Leitão Advogados que se responsabilizou pela feitura dos estatutos e pelo registo notarial, com o Dr. Mário Matos dos Santos na altura Diretor da Fundação Casa de Macau, que nos possibilitou termos uma delegação executiva em Lisboa, a sede oficial é na Ericeira Business Factory, graças à extraordinária abertura da Câmara Municipal de Mafra, com o Dr. Pedro Farinha da BTOC net, empresa que realiza a contabilidade da ANRS e o Professor Doutor António Pires Caiado auditor das Contas da ANRS. De referir que a ANRS é um think tank que vive exclusivamente das quotizações que os seus associados pagam e não recebe subsídios governamentais. As atividades que desenvolvemos são organizadas pelos associados que não são remunerados, eu a brincar costumo dizer que pagamos para trabalhar.

Que projetos de colaboração e protocolos estão hoje ativos e no que estão focados?

A ANRS assinou Protocolos de Cooperação com várias entidades nomeadamente com o Instituto Internacional de Macau (IIM), a Secretaria da Regional de Economia, Turismo e Cultura da Madeira, a Silk Road Chamber of International Trade (China), o Centro Científico e Cultural de Macau, a Universidade de Aveiro, a Confederação Empresarial da CPLP, a Faculdade de Direito e Ciência Politica da Universidade Lusófona do Porto, a Fundação Jorge Álvares, o Silk Road Friends Association (China), entre outros, com vista a potenciar ações de promoção da iniciativa Faixa e Rota e a Nova Rota da Seda Marítima do Século XXI, em Portugal, Macau, China e Países de Língua Portuguesa.

Independentemente destes Protocolos, a ANRS trabalha com outros parceiros conforme os temas que desenvolve. Por exemplo, a nossa última atividade, a organização do Sino-Portuguese Marine Science Seminar for feita em parceria com o Fundo de Desenvolvimento da Ciência e Tecnologia de Macau e com o Centro Científico e Cultural de Macau. A ANRS tem organizado e participado em muitas conferências, seminários e encontros com objetivo de transmitir informação atualizada sobre a Nova Rota da Seda. Para uma melhor compreensão desta iniciativa a ANRS tem também publicado artigos em vários media e editou em parceria com o IIM os livros “A China e a Revitalização das Antigas Rotas da Seda- Novo Vetor do Comércio Mundial” e “The New Silk Road and the Portuguese Speaking Countries in the New World Context”.

Quais os vossos principais parceiros?

Depende dos projetos como expliquei atrás. Como podem ver no nosso site temos tido muitas atividades e temos trabalhado com muitos parceiros.

No campo económico, cultural e social, como avalia as relações entre Portugal e a China?

Muito boas. Existe uma longa e histórica amizade, muito consolidada com a nossa presença em Macau de quase 500 anos e, mais recentemente, pelo bem-sucedido processo de transição da Administração de Macau de Portugal para a China e pelo intenso relacionamento que se desenvolveu entre a China e Portugal no período subsequente. Diplomaticamente, a partir de 1999 as relações bilaterais entre Portugal e a China reforçaram-se largamente, embora Macau continue a ser um polo importante nesse relacionamento, nomeadamente no Fórum de Macau – Fórum de Desenvolvimento Económico e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa criado pela China em 2003.

Nomeadamente em 2005, foi assinada uma Declaração Conjunta para o reforço das relações bilaterais estabelecendo uma Parceria Estratégica Global entre Portugal e a China. Em 2014 na visita do Presidente Cavaco Silva à China foi decidido aprofundar essa parceria promovendo-a a Parceria Estratégica de Cooperação Abrangente Bilateral. Parceria, significa que a cooperação deve ser em pé de igualdade, mutuamente benéfica e win-win. Estratégica, porque de longo prazo e estável. Abrangente, significa que a cooperação deve ser global, de grande alcance e em múltiplas áreas. Abrange domínios económicos, científicos, tecnológicos, políticos e culturais, contém níveis tanto bilaterais como multilaterais e é conduzida tanto por governos como por grupos não governamentais.

Depois de 1999, vários Acordos e Convenções foram assinados entre os governos de Portugal e a China. Refiro alguns acordos mais significativos: Cooperação económica (2006); Promoção e proteção recíproca de investimentos (2008); Cooperação no domínio do turismo (2012); Parceria azul (2017). O acordo Parceria Azul visa promover a colaboração entre os governos, nos setores de ciência e tecnologia, entre as empresas e o público dos dois países em áreas como governação marítima, ecologia marinha, energia renovável marinha e cultura marinha.

Em 2018, por ocasião da visita do Presidente Xi Jinping a Portugal, foram assinados cerca de 17 acordos e memorandos dos quais se destaca pela sua importância a Parceria entre a China e Portugal na Ciência e Tecnologia 2030 e o já referido Memorando de Entendimento sobre a Cooperação entre Portugal e a China na Faixa Económica da Rota da Seda e da Rota da Seda Marítima do Século XXI. O Memorando sobre Ciência e Tecnologia 2030 prevê a constituição de consórcios de investigação entre os dois países e o reforço da cooperação entre as instituições do ensino superior e da ciência e reconhece o Centro Científico e Cultural de Macau como um centro dinamizador.

O Memorando de Entendimento Portugal – China na Faixa Económica da Rota da Seda e da Rota da Seda Marítima do Século XXI prevê cooperação no desenvolvimento de infraestruturas aéreas, terrestres, marítimas, portuárias, de transporte e logísticas e digitais. Mobilidade e conetividade – veículos elétricos, infraestruturas de poupança energética, soluções de transporte intermodal, conexões estratégicas de caminho-de-ferro com ligação ao Trans-European Transport Networks. Troca de conhecimento e experiência na integração de sistemas de transmissão de eletricidade inteligente, renovável e sustentada assim como gestão do seu network.

Neste memorando os dois países concordaram em promover o comércio e investimento bilateral com benefício mútuo, nomeadamente desenvolvimento da cooperação na produção industrial e cooperação com terceiros mercados assim como a cooperação financeira. Os dois países deverão encorajar as suas instituições financeiras a oferecer financiamento e serviços financeiros à produção, comércio e capacidade de investimento. Este memorando pretende também reforçar a conetividade entre as pessoas dos dois países, o desenvolvimento de um network de cidades, e governos locais assim como cooperação na educação, na saúde, na cultura, no turismo, nos media, e entre think tanks.

Qual a vossa interação com a comunidade portuguesa residente em Macau?

É muito boa, temos Amigos em Macau, temos um excelente relacionamento com entidades de Macau, quer do governo, quer das universidades, quer da sociedade civil.

Pode explicar o conceito de think tank?

Os think tanks são instituições normalmente da sociedade civil, embora muitos estejam ligadas formal ou informalmente às academias que se dedicam à produção de conhecimento sobre determinados temas, sejam eles económicos, de relações internacionais, de geopolítica, científicos, de políticas públicas, entre outros. Eles fomentam o debate público, chamam a atenção de públicos alvo variados nomeadamente dos governos para a importância de certos temas, para isso organizam seminários, conferências, workshops, efetuam publicações de artigos em revistas, ou publicam livros, no fundo eles são um laboratório de ideias. Na ANRS temos uma percentagem significativa de pessoas ligadas às universidades.

Como avalia a atual cooperação Portugal-China, tendo como mote a Iniciativa Faixa e Rota e Rota da Seda Marítima do Século XXI?

O facto de o governo português ter assinado o Memorando Faixa e Rota dá-lhe um enquadramento diplomático favorável, digamos de goodwill, com as entidades chinesas, se reparar nos discursos do Senhor Embaixador da China em Portugal ou nos das entidades do governo chinês que nos visitam, eles normalmente mencionam o facto de Portugal ter assinado esse Memorando, como uma prova da confiança, amizade e cooperação entre os dois países. Ainda na visita do Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros à China, num dos discursos Portugal foi elogiado por ter resistido às pressões externas para sair da Faixa e Rota. Também se lhes perguntarem quais os projetos Faixa e Rota em Portugal a resposta será provavelmente que sendo Portugal um país Faixa e Rota todos os investimentos da China em Portugal são Faixa e Rota.