“Macau é uma porta de entrada”
A Universidade de Coimbra reforça a sua estratégia de internacionalização assente na língua portuguesa e numa leitura geoestratégica do ensino superior global, em que Macau surge como plataforma privilegiada de ligação à República Popular da China. Em entrevista, João Nuno Cruz Matos Calvão da Silva, vice-reitor para as Relações Externas e Alumni, sublinha que a UC, prestes a assinalar 736 anos, continua a projetar o seu prestígio internacional a partir de uma herança académica que marcou o mundo lusófono e que hoje se traduz numa presença consistente em espaços-chave como o Brasil, os países africanos de língua portuguesa, Timor-Leste e Macau. Essa projeção internacional combina tradição, capacidade de adaptação e uma leitura muito concreta das novas oportunidades globais.
Ao longo da conversa, o responsável explica que a cooperação com Macau há muito ultrapassa o Direito, área fundacional dessa relação desde os anos 1990, e abrange hoje Medicina, Engenharia, Inteligência Artificial, Património Cultural e programas avançados de investigação e doutoramento. Para João Nuno Calvão da Silva, Macau é uma verdadeira porta de entrada para a afirmação global da Universidade de Coimbra, permitindo-lhe dialogar com grandes potências sem abdicar da sua identidade nem do valor estratégico da língua portuguesa como ativo científico, cultural e diplomático. A aposta não é apenas simbólica: traduz-se em programas, protocolos, circulação de estudantes e desenvolvimento de investigação conjunta.
A caminho dos 736 anos da Universidade, como descreve o atual posicionamento da Universidade de Coimbra no panorama do ensino superior global?
São praticamente 736 anos de história. Uma história que se confunde não apenas com Coimbra e com a região centro, mas com o próprio mundo da língua portuguesa. O balanço que faço é que a Universidade de Coimbra continua a honrar a sua memória, o seu passado e a sua história. Durante muito tempo foi a única grande universidade de um vasto espaço lusófono e esse legado mantém-se particularmente visível na relação com o Brasil, os PALOP, Timor-Leste e Macau. No caso brasileiro, vários historiadores sublinham o peso que Coimbra teve na formação das elites e até na consolidação de um país uno. Hoje, essa centralidade continua evidente: temos mais de três mil estudantes brasileiros e permanecemos uma referência maior fora do Brasil. Mas esse papel estende-se a todo o mundo de língua portuguesa. É a partir dessa memória, da atratividade atual e do trabalho feito em português com esses territórios – muitas vezes também através das portas do Direito – que a Universidade projeta o seu futuro internacional. O prestígio da UC continua a afirmar-se por honrar essa história e por lhe dar um sentido útil no presente. Quando falamos da Universidade de Coimbra no mundo, falamos de uma instituição cuja identidade internacional não é circunstancial, mas estrutural. O Brasil foi aqui um exemplo maior, mas o mesmo se sente na relação com África, Timor-Leste e Macau: a Universidade continua a ser vista como casa-mãe, como lugar de encontro e de formação de quadros. Isso dá-lhe uma centralidade que não é apenas simbólica; tem expressão real no número de estudantes, nos laços académicos e na influência cultural e jurídica que continua a exercer.
Em termos de estudantes estrangeiros e nesta política de internacionalização da Universidade de Coimbra, quantos alunos estão na Universidade? E de que nacionalidade?
Temos cerca de 26 mil estudantes no total e cerca de 20% são estrangeiros, ou seja, mais de cinco mil alunos em licenciaturas, mestrados e doutoramentos. A maior comunidade é a brasileira, com mais de três mil estudantes, mas temos perto de 120 nacionalidades representadas. Isso mostra bem a dimensão global da Universidade. Para esses resultados contribui também a mobilidade académica, onde a UC tem vindo a bater recordes nos últimos anos, ultrapassando já os dois mil estudantes recebidos em programas de intercâmbio. Esses estudantes vivem a experiência de Coimbra, aprendem português, integram-se bem e regressam aos seus países como verdadeiros embaixadores da Universidade. Muitas vezes acabam por voltar para fazer mestrado ou doutoramento. Esse efeito multiplicador é muito importante e ajuda a explicar porque a internacionalização tem vindo a crescer de forma consistente. É também justo reconhecer que esse resultado não é apenas da equipa reitoral: deve-se ao mérito dos professores, investigadores, funcionários e gabinetes de relações internacionais, cujo trabalho diário, muitas vezes em condições exigentes, tem sustentado esta projeção. E isso tem um impacto muito maior do que os números isolados podem mostrar: cada estudante satisfeito leva consigo a experiência académica, cultural e humana de Coimbra, alarga a rede Alumni e recomenda a Universidade a outros colegas. É uma dinâmica de confiança e reputação que se constrói ao longo do tempo e que hoje está muito consolidada. Coimbra beneficia aqui de um efeito reputacional acumulado: quem chega encontra qualidade científica, acolhimento e uma identidade universitária muito própria, e isso tende a reproduzir-se de forma orgânica.
É um defensor da língua portuguesa no ensino superior. Considera que isso também distingue a Universidade de Coimbra?
É uma convicção muito clara minha. O inglês é indispensável e a Universidade deve continuar a reforçar a sua oferta letiva em inglês, sobretudo em áreas em que isso é incontornável. Mas seria um erro estratégico esquecer que a principal mais-valia da Universidade de Coimbra é a sua história e a sua centralidade no espaço lusófono. Muitos estudantes escolhem Coimbra precisamente pela proximidade cultural, pela vivência comum e pela possibilidade de estudar em português. É isso que nos distingue de outras universidades e que nos dá uma relevância geoestratégica própria perante países como a China, os Estados Unidos ou outros parceiros internacionais. Apostar no inglês, sim; abdicar da língua portuguesa como fator distintivo, não. O português não é apenas um elemento afetivo ou identitário; é também um instrumento de projeção internacional e um fator de diferenciação num mercado global muito competitivo.
Falava da República Popular da China, e olhando para as relações que a Universidade de Coimbra mantém com esse país, qual é a importância estratégica destas relações?
A Universidade de Coimbra tem de olhar para o mundo inteiro, sem perder as suas prioridades estratégicas. Nesse quadro, a China é incontornável e Macau assume um papel … ler artigo completo
