“A cooperação entre a China e Portugal possui vantagens complementares e amplas perspetivas em cooperações com mercados terceiros”
A Parceria Estratégica Global entre a China e Portugal, formalizada em 2005 e assente em relações diplomáticas estabelecidas em 1979, mantém-se como um dos eixos centrais do diálogo sino-europeu. Em entrevista à revista Diáspora Lusa, o Embaixador da República Popular da China em Portugal, Yang Yirui, sublinha que a relação bilateral tem sido conduzida com visão estratégica e de longo prazo, independentemente das mudanças internacionais. O diplomata recorda que a resolução da questão de Macau por via negocial constituiu um modelo de entendimento internacional e defende que o respeito mútuo, incluindo a adesão portuguesa ao princípio de uma só China, sustenta a estabilidade política e económica entre os dois países.
Num contexto de reconfiguração das cadeias globais e de aposta em transição energética, economia digital e cooperação trilateral em mercados terceiros, Pequim identifica em Portugal um parceiro europeu com influência histórica em África e no espaço lusófono. Yang Yirui aponta ainda Macau como plataforma estratégica para a cooperação com os Países de Língua Portuguesa, destacando o estatuto de cidade anfitriã do Fórum de Cooperação Económica e Comercial China–PLP. Com mais de 30 mil cidadãos chineses a residirem em Portugal e com a isenção de visto para portugueses em vigor desde outubro de 2024, o diplomata considera que os fluxos humanos e comerciais ganharam novo impulso, refletindo um comércio bilateral que, segundo dados oficiais chineses, atingiu 8,869 mil milhões de euros em 2025.
Como caracteriza a Parceria Estratégica Global China-Portugal no contexto das Relações Históricas Sino-Portuguesas?
As trocas entre os povos chinês e português têm uma longa história. As relações diplomáticas foram estabelecidas em 1979, com uma Parceria Estratégica Global formada em 2005. As relações Chinas-Portugal têm perdurado e evoluído, forjando uma trajetória de desenvolvimento distinta que incorpora uma profunda amizade que atravessa mares e montanhas. Centenas de anos atrás, a porcelana azul e branca da China atravessou os mares e chegou a Portugal, onde, combinada com as técnicas locais, deu origem ao azulejo português, que tem um encanto próprio. No Freixo de Espada à Cinta, um município no nordeste de Portugal, adotou, desde cedo, as técnicas da sericultura e da fabricação do tecido que vieram da China, e por isso, é conhecido como a “terra da seda”. Na viragem do século passado, as duas nações resolveram a questão de Macau através de negociações amigáveis, estabelecendo um modelo exemplar para as nações que lidam com legados históricos. Ao longo dos 47 anos desde o estabelecimento das relações diplomáticas, independentemente das mudanças das circunstâncias internacionais, ambos os lados têm consistentemente visto e desenvolvido a sua relação a partir de uma perspetiva estratégica e de longo prazo. Os intercâmbios de alto nível continuam frequentes, o alinhamento estratégico prossegue sem problemas e a compreensão e o apoio mútuos são mantidos em questões que envolvem os interesses centrais e as principais preocupações de cada um. Portugal adere firmemente ao princípio de uma só China, enquanto a China respeita consistentemente o caminho de desenvolvimento de Portugal. Este respeito e confiança mútuos são precisamente a chave para a vitalidade e o dinamismo da Parceria Estratégica Global China-Portugal.
Como vê a influência de Portugal na Europa e em África? Como avalia o desenvolvimento das relações China-EU e China-África?
Portugal é um membro fundamental da União Europeia, participando ativamente nos assuntos da UE, promovendo a assinatura do Tratado de Lisboa e contribuindo significativamente para a reforma da UE. Portugal dá prioridade ao desenvolvimento de relações com regiões como a África e a América Latina como uma orientação importante da sua política externa, contribuindo para a prosperidade e o desenvolvimento dessas regiões. A China e a UE são parceiros estratégicos globais que partilham amplos interesses comuns, onde a cooperação supera a concorrência e o consenso prevalece sobre as diferenças. A cooperação entre a China e a UE continua a aprofundar-se em tecnologias de ponta, como inteligência artificial, novas energias e biomedicina, e os intercâmbios culturais e as apresentações musicais são bem-vindos pelos povos de ambos os lados. A diplomacia da China encarna o espírito harmonioso da civilização chinesa, considerando a Europa como um polo vital num mundo multipolar e apoiando consistentemente a integração europeia e a autonomia estratégica da UE. Como duas grandes potências globais, dois grandes mercados e duas grandes civilizações, a defesa do diálogo e da cooperação pela China e pela Europa promoverá uma maior estabilidade e paz em todo o mundo. O seu compromisso com a abertura e o benefício mútuo garante a maré irreversível da globalização económica. A sua prática conjunta do multilateralismo injeta força vital para enfrentar os desafios globais comuns. O ano de 2026 marca o 70.º aniversário das relações diplomáticas entre a China e a África. Inspirando-se no espírito de amizade e cooperação entre a China e África, a China e os seus parceiros africanos continuam a avançar lado a lado no caminho da modernização, a defender a justiça num contexto internacional em mudança, a dar o exemplo em matéria de cooperação para o desenvolvimento no Sul Global e a compor conjuntamente um novo capítulo na construção de uma Comunidade com um Futuro Compartilhado para a Humanidade. A China apoia firmemente o desenvolvimento autónomo da África, implementando inúmeros projetos orientados para os povos nas áreas das infraestruturas, agricultura, saúde e educação, concedemos a isenção de tarifas a 100% a todas as linhas tarifárias para 53 países africanos com os quais mantemos relações diplomáticas, enviamos equipas médicas e especialistas técnicos para prestar apoios locais e realizamos várias formas de formação em ajuda externa. Simultaneamente, aprofundamos os intercâmbios culturais, promovendo as culturas africanas na China e fomentando laços profundos entre os povos. A cooperação entre a China e Portugal possui vantagens complementares e amplas perspetivas em cooperações com mercados terceiros. A China está pronta para trabalhar com Portugal para alinhar eficazmente a Iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” com a estratégia de desenvolvimento de Portugal, expandir continuamente o comércio bilateral e avançar de forma constante na cooperação em matéria de novas energias, transição verde, economia digital e economia marinha, com base nos resultados já alcançados. Iremos expandir ainda mais a cooperação trilateral ou multilateral no mercado, impulsionar melhores resultados na cooperação de alta qualidade entre a China e Portugal no âmbito de “Uma Faixa, Uma Rota”, alcançar benefícios mútuos para todas as partes envolvidas e contribuir para o desenvolvimento e a prosperidade do mundo.
Qual o papel de Macau no aprofundamento das relações amigáveis numa perspetiva de longo prazo e na promoção e cooperação entre os nossos dois Países?
Sendo a única região do mundo com o chinês e o português como línguas oficiais, Macau carrega os profundos laços históricos e culturais entre a China e Portugal, serve como uma ponte natural para fomentar a cooperação económica e comercial, bem como os intercâmbios culturais, entre a China e Portugal e até os Países de Língua Portuguesa. Macau é uma pérola resplandecente situada nas margens do Mar da China Meridional e tem testemunhado um enorme sucesso na implementação de “Um País, Dois Sistemas” com caraterísticas distintivas de Macau desde o seu regresso à Pátria e, com o forte apoio do governo chinês alcançou saltos históricos no seu desenvolvimento socioeconómico. Com base no seu posicionamento como “um centro, uma plataforma, uma base” – ou seja, um centro mundial de turismo e lazer, uma plataforma de serviços para a cooperação económica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa e uma base de intercâmbio e cooperação para a promoção da coexistência multicultural, com predominância da cultura chinesa, Macau continua a expandir a sua cooperação externa. O governo chinês atribui grande importância ao desenvolvimento de Macau, estabelecendo a Zona de Cooperação Aprofundada Hengqin Guangdong-Macau para promover ainda mais a diversificação moderada da economia de Macau e facilitar os meios de subsistência e o emprego dos seus residentes. Como cidade anfitriã permanente do Fórum de Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, Macau aproveita a sua vantagem única como ponte entre a China continental e os Países de Língua Portuguesa. No futuro, poderá aproveitar plenamente os pontos fortes institucionais de “Um país, dois sistemas” para continuar a construir uma plataforma eficiente para a cooperação prática entre a China e os Países de Língua Portuguesa, alcançando benefícios mútuos e resultados vantajosos para todas as partes.
Qual a importância da Língua Portuguesa no contexto cultural e social no seu País?
A língua portuguesa serve como um elo e uma ponte vitais para o intercâmbio cultural entre a China e o mundo lusófono, promovendo uma comunicação mais profunda nas áreas da língua, das artes e de outros domínios. À medida que a cooperação prática entre a China e Portugal se aprofunda, a procura por profissionais falantes de português continua a crescer, tornando-se um pilar vital para o avanço da colaboração no comércio, na tecnologia, na educação e nos outros campos. Atualmente, mais de 40 universidades chinesas oferecem cursos de língua portuguesa. O estudo e a promoção do português também fortalecem de forma constante a base da amizade entre a China e Portugal, injetando vitalidade no desenvolvimento a longo prazo das relações bilaterais.
Qual o estado atual do Fluxo migratório entre Portugal e a China?
Os intercâmbios pessoais entre a China e Portugal continuam consistentemente vibrantes, com os fluxos migratórios a manterem uma trajetória saudável e estável. Atualmente, …ler artigo completo.
