Este mês, tenho o prazer de apresentar Leah Hawker, artista visual e fotógrafa profissional sediada na Cidade do Cabo, com 23 anos de experiência. Através do seu mais recente projeto e exposição, Little Madeira, Woodstock, 7925, Leah apresenta uma nova e vasta coleção de fotografias documentais, um estudo aprofundado de uma comunidade pouco conhecida, mas essencial para a paisagem cultural sul-africana: a comunidade madeirense-portuguesa de Woodstock.

A exposição de Hawker, acolhida na anexo da galeria nacional sul-africana IZIKO, é o primeiro arquivo fotográfico oficial da geração original de madeirenses e seus descendentes que se estabeleceram na Cidade do Cabo entre 1900 e 1980. A maioria dos membros desta comunidade instalou-se no pequeno subúrbio de Woodstock, situado no sopé do Devil’s Peak e em frente aos barcos de pesca do porto do Cabo. Woodstock era tão densamente povoada por madeirenses que era apelidada de «Pequena Madeira».

A exposição, intitulada Little Madeira, Woodstock, 7925, com a sua mistura de narrativas visuais, documentos históricos e instalações interativas, é muito mais do que uma exposição, é uma celebração do património, da cultura, da memória e da comunidade.

A centelha por trás da história

A viagem começou bem perto de casa. «Moro em Woodstock há 15 anos», conta Leah. «Todos os Natais, passava pela casa da minha vizinha Maria, que estava iluminada com um espetáculo de luzes incrível. A sua exposição anual de decorações festivas ao ar livre era como um farol na nossa rua mal iluminada.»

Há alguns anos, durante o período de Natal, Leah conheceu Maria e foi convidada a entrar em sua casa. Foi então que ela descobriu seu primeiro presépio: uma enorme cena da Natividade, cuidadosamente construída ao longo de várias semanas. «Fiquei absolutamente sem palavras», conta Leah. «Nunca tinha visto nada assim. Sabia que tinha de fotografar e, assim que comecei, o projeto documental começou a tomar forma.»

O que começou como uma curiosidade pessoal rapidamente se transformou num grande projeto documental. Nos 15 meses seguintes, Leah fotografou e entrevistou mais de 200 pessoas, abrangendo três gerações, reunindo histórias, tradições e fragmentos de história que nunca tinham sido oficialmente registados.

No meio do processo, Leah obteve uma pequena bolsa do Conselho Nacional das Artes da África do Sul, que financiou a fase de exposição do projeto na Cidade do Cabo.

Construindo arquivos visuais

Até agora, não existia nenhum arquivo visual da comunidade madeirense-portuguesa da Cidade do Cabo. O projeto de Leah preenche assim uma lacuna importante, preservando uma história cultural que corria o risco de cair no esquecimento.

A exposição apresenta mais de 260 fotografias cuidadosamente selecionadas, instalações de equipamentos de pesca e bordados tradicionais, documentos históricos e elementos participativos. Uma dessas obras interativas é um grande mapa de Woodstock, no qual os visitantes de origem madeirense podem marcar os seus endereços antigos ou atuais com alfinetes.

«Não queria que fosse uma exposição passiva», explica Leah. «Queria que as pessoas participassem, contribuíssem para a preservação da memória e sentissem um sentimento de pertença e orgulho.»

A segunda instalação interativa chama-se «A parede histórica». No seu centro encontra-se um mapa emoldurado da Madeira. A partir dela, espalham-se fotografias históricas a preto e branco tiradas na Madeira. Mais adiante, encontram-se documentos de viagem das famílias para o Cabo. Seguem-se fotografias antigas da nova vida em Woodstock e, por fim, fotografias atuais. Os visitantes são convidados a adicionar informações às imagens com post-its e canetas que lhes são disponibilizados. Muitos já contribuíram com novas fotos.

Os temas abordados na exposição incluem a pesca, o bordado tradicional, os encontros sociais e religiosos, os pratos típicos, as danças folclóricas, a iconografia católica, a nostalgia e, claro, os espetaculares presépios.

Um projeto profundamente humano
No fundo, Little Madeira, Woodstock, 7925 é mais do que uma simples história, é uma questão de conexão.
Leah reflete: «Partilhamos o que se chama de condição humana. Ela descreve como vivemos e como o passado e o presente moldam as nossas identidades e formas de ser. Cada um de nós é um mistério para o outro até que a história do outro se revele. É graças a esse esforço de conexão que podemos realmente conhecer o outro e a nós mesmos.

Acredito que conhecer o ‘outro’ gera profunda compaixão, entendimento, união e, em última análise, paz. É com essa premissa que abordo a fotografia documental, é sobre explorar e compreender a experiência humana.”

Através da sua lente, Leah não só documentou a jornada da comunidade madeirense como também explorou temas universais como migração, perda, identidade, pertença e resiliência.

  • Fish4Africa: Retalhista de frutos do mar local.
  • Broadway Café & Patisserie: Patrocinador dos pastéis de nata.
  • Liquor City: Patrocinador da cerveja Coral.
  • Bruce Jack Winery: Fornecedor de vinhos para o evento de abertura.
  • Lumar Foods: Financiamento de componentes da exposição.
  • Camões — Instituto da Cooperação e da Língua, I.P.: Promoção da língua e cultura portuguesa.
  • Cônsul Geral de Portugal na Cidade do Cabo, Jorge Teixeira de Sampayo.

Contacto Leah Hawker:
✉️ [email protected]
📞 083 340 7872
📸 Instagram: @leahhawker_documentary

Um agradecimento especial a Leah Hawker pela sua visão, dedicação e respeito ao documentar esta história extraordinária. O seu trabalho deu visibilidade a vozes há muito esquecidas, oferecendo um espaço de celebração, memória e orgulho. Obrigado.

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Ricardo Freitas Cronista África do Sul | Ricardo de Freitas