Portugal vai assumir, pela primeira vez, uma responsabilidade de grande escala no desenvolvimento de um lançador espacial europeu. O país, que até agora tinha uma participação inferior a 1% em missões da Agência Espacial Europeia (ESA), passará a contribuir com 20% do novo foguetão europeu, numa missão liderada industrialmente pela empresa portuguesa Omnidea.
Segundo a ESA, a divisão de responsabilidades no novo lançador foi definida para garantir maior autonomia europeia no acesso ao espaço após o fim do programa Ariane V e as restrições impostas pela ausência de colaboração russa. Nesse contexto, Portugal será responsável pelo primeiro estágio do lançador, considerado o mais complexo devido às exigências de propulsão e segurança.
Até 2025, o contributo português restringia-se a áreas específicas, como componentes eletrónicos ou testes de materiais. O novo contributo surge num período de forte crescimento da indústria nacional: de acordo com a Agência Espacial Portuguesa, só no primeiro trimestre de 2025 foram atribuídos 8,7 milhões de euros em contratos da ESA a empresas portuguesas.
O desenvolvimento do primeiro estágio do lançador ficará a cargo da Omnidea, que irá liderar a conceção, produção e integração em território nacional. Em declarações recentes, o gestor da empresa, Tiago Pardal, sublinhou que o projeto obrigará a “alargar substancialmente a equipa de engenheiros e técnicos e encontrar espaço para novas instalações”, prevendo impactos diretos na criação de emprego altamente qualificado.
A aposta envolve também o meio académico: instituições como o Instituto Superior Técnico, a Universidade do Minho e o CEiiA reforçam parcerias com a indústria no âmbito da estratégia Portugal Space 2030 e do programa New Space Portugal, considerados pelo Governo como fundamentais para consolidar o setor.
Além da Omnidea, outras empresas portuguesas, como a Thales Edisoft e a Stellar Kinetics, estão a ampliar contratos em áreas de satélites, propulsão e sistemas espaciais. A ESA assinala que esta participação representa uma “transformação estrutural”, na medida em que Portugal deixa de ser apenas fornecedor de componentes para se assumir como integrador de soluções tecnológicas completas.
O projeto será determinante não só para a presença nacional no setor aeroespacial, como também para a projeção internacional de Portugal, ao promover novas redes de cooperação e inovação no espaço europeu.
