Há conversas que nos ficam, não pelo que foi dito apenas, mas pelo que despertam cá dentro.
Num destes dias, ao almoço, sentado à mesa com um grande amigo, daqueles que fazem acontecer, que constroem, que acreditam, demos por nós a falar daquilo que verdadeiramente importa, falámos de negócios, sim, e de oportunidades, naturalmente. Mas acabámos, inevitavelmente, a falar de raízes, de território e de futuro.
E, sem que fosse preciso forçar o tema, fomos parar a um lugar muito concreto, ao nosso São Romão, a minha terra.
E foi nesse momento, entre histórias, ideias e memórias, que percebi, uma vez mais, que São Romão não é apenas um ponto no mapa, é um exemplo, um daqueles exemplos silenciosos que dizem muito sobre o país que somos… e, sobretudo, sobre o país que podemos vir a ser.
Porque o interior de Portugal não precisa de mais diagnósticos, precisa de decisão, precisa de ação, precisa, acima de tudo, de gente que acredite, mesmo quando tudo parece mais difícil. E a verdade é que há muita gente a acreditar.
Gente que investe quando seria mais fácil não investir, gente que fica quando seria mais simples partir, gente que regressa quando tudo parecia apontar no sentido contrário.
São Romão tem isso. Tem essa força invisível, mas absolutamente determinante, uma energia que não aparece nas estatísticas, mas que se sente nas ruas, nas empresas, nas famílias que continuam a construir ali a sua vida.
E talvez seja precisamente isso que mais me orgulha.
Cresci ali, saí, como tantos outros, à procura de oportunidades, mas nunca desliguei, nunca quis desligar, porque há coisas que não se explicam, sentem-se. E São Romão, para mim, é uma dessas coisas.
Volto sempre que posso, pela família, pelos amigos, pelas memórias, por aqueles que mesmo já não estando presentes, é importante ir visitá-los. Mas também por algo mais difícil de descrever, um sentido de responsabilidade.
Porque, na minha pequena dimensão, também eu sinto que devo contribuir, investir, participar, ajudar a fazer crescer.
Tal como tantos outros fazem, muitas vezes longe dos holofotes.
E depois há a Serra.
A nossa Serra da Estrela, imponente, bela, desafiante, um dos poucos lugares em Portugal onde a neve ainda transforma a paisagem num cenário quase mágico, e, no entanto, quantas vezes essa mesma neve traz consigo dificuldades? Estradas cortadas, acessos condicionados, planos adiados.
É quase irónico, aquilo que deveria ser um dos maiores ativos transforma-se, por vezes, num obstáculo.
Mas quem conhece a Serra sabe que ela é assim mesmo. Exigente. Autêntica. Sem concessões.
E talvez por isso mesmo forme pessoas diferentes. Pessoas resilientes. Pessoas que não desistem à primeira dificuldade.
Porque viver e investir no interior exige isso: resiliência.
Exige acreditar quando as infraestruturas não são as ideais, quando as acessibilidades falham, quando os apoios não chegam com a rapidez ou a dimensão necessária.
E, ainda assim, as pessoas fazem acontecer.
Produzem. Criam. Inovam.
Numa região onde o vinho ganha cada vez mais expressão, onde a agricultura mantém raízes profundas, onde o queijo da Serra continua a ser símbolo de identidade e onde, em tempos, a indústria têxtil marcou gerações, existe um potencial que está longe de estar esgotado.
Mas há um desafio que se impõe a todos nós.
As pessoas.
Como mantemos os jovens? Como os fazemos regressar depois de saírem para estudar, para conhecer o mundo? Como tornamos estes territórios suficientemente atrativos para que alguém olhe para eles, não como um plano B, mas como uma escolha consciente?
A resposta não é simples. Nunca foi.
Mas uma coisa é certa, não será com soluções rápidas nem com estratégias de curto prazo.
O interior precisa de visão, precisa de continuidade, e acima de tudo, de compromisso sério e duradouro.
Precisa de políticas, sim. Mas precisa, acima de tudo, de alinhamento, de união, de um esforço coletivo que vá para além de interesses momentâneos.
Porque isto não é sobre esquerda ou direita, é mesmo, sobre futuro.
E o futuro não se constrói apenas nas grandes cidades.
Constrói-se também, e talvez de forma ainda mais genuína, em lugares como São Romão.
Lugares onde ainda se conhece o nome das pessoas, onde há tempo para conversar, onde as relações têm profundidade, onde o sentido de comunidade não é uma tendência, é uma realidade.
Mas que precisam urgentemente, de mais gente. Mais investimento. Mais atenção.
Se não formos capazes de inverter o caminho que temos vindo a percorrer, corremos um risco real, o de vermos desaparecer, lentamente, partes inteiras do nosso país.
E isso não pode acontecer.
Não por nostalgia.
Mas por visão.
Porque o interior não é o passado de Portugal, é uma parte essencial do seu futuro.
No final daquele almoço, entre ideias e convicções, ficou-me uma certeza muito clara.
Não basta acreditar, é preciso agir. Cada um à sua escala, cada um com o que pode dar, mas com um objetivo comum.
E talvez seja aí que tudo começa.
Num almoço.
Numa conversa.
Numa decisão.
Ou, quem sabe… numa terra chamada São Romão.
Foto: Paulo Figueiredo
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Vinhos por Cláudio Martins
