Em Portugal, fala-se de quase tudo e a toda a hora nas, cada vez mais perigosas, redes sociais: da política que irrita e cada vez mais bizarra, do futebol que consola e que gera paixões descontroladas e até das doenças que nos acompanham e dos problemas no actual estado do sistema de saúde que criam preocupações, evidentes, na população. Mas há um tema que continua a provocar um silêncio desconfortável, o dinheiro e como o gerir.
O salário é dito em voz baixa e dos mais baixos da zona Euro, a renda da casa é um segredo e cada vez mais complicada para a generalidade das famílias Portuguesas, e dinheiro esse que, cada vez mais, escasseia. O dinheiro, que dita tanto das nossas escolhas e limitações, continua a ser o grande assunto proibido à mesa.
Este silêncio não é, apenas, uma questão de pudor; é um traço cultural. Herdámos séculos de uma moral que associa o falar de dinheiro à ostentação, e o ter dinheiro, à culpa. Num país de tradições católicas, o valor da humildade sobrepôs-se ao da transparência. A riqueza, quando existe, é escondida; a pobreza, quando sentida, é disfarçada. E assim, vivemos num equilíbrio precário entre o que temos e o que fingimos ter.
Esta pequena introdução leva-me, então, ao tema principal desta crónica que pretende fazer uma reflexão do sistema financeiro Português, do seu atual estado e de como poderia melhorar.
Após a crise da dívida soberana e a entrada da Troika entre 2011 e 2014, os bancos adotaram melhores práticas e reforçaram, significativamente, a gestão de risco, controlo interno e rácios de capital o que reduziu a probabilidade de resolução de algum banco como aconteceu no BES, BPN entre outros.
Actualmente a Banca apresenta bons rácios financeiros, apresenta lucros recorde numa base trimestral mas isso não se reflete na melhoria de serviço para os clientes, antes pelo contrário, sejam eles pessoas ou empresas. A concorrência em Portugal nada traz de novo para os clientes bancários sendo a Banca em Portugal lenta, burocrática e bastante cara comparativamente com a qualidade de serviço.
Na minha experiência profissional tive oportunidade de trabalhar em dezenas de países e o sistema financeiro em Portugal está na cauda da minha avaliação independente e apresenta vários fatores onde, realmente, pode e deve melhorar e em que poderia agregar valor na sociedade mas a visão de curto prazo geralmente orientada aos mandatos dos administradores limita uma visão estratégica onde os clientes deveriam ser o foco e não, somente, os lucros.
O choque tecnológico em vigor com a entrada galopante da inteligência artifical nas nossas vidas e, consequentemente, na implementação de novas práticas nos bancos – por exemplo, quem nunca foi confrontado nos últimos anos com as chamadas atendidas por máquinas ou o seu gestor de conta ser substituido pela aplicação do Banco sem que nunca se conheça quem tem acesso às nossas contas ou com quem falamos online – sendo que existe uma forte tendência para a adopção de processos automáticos nos mais variados temas mas com a burocracia existente em Portugal, sobretudo ao nível dos reguladores, acabamos invariavelment, por ter de assinar papéis (tal como o famoso sketch dos gato fedorento) e esperar dias e semanas para pedidos simples que noutras juriscições, literalmente, levam horas para fazer o mesmo serviço.
A título de exemplo, existem casos em que empresas demoram 2 ou 3 meses (às vezes mais) para abrir uma simples conta à ordem para movimentar os seus fundos, pagar a fornecedores, trabalhadores entre outras necessidades. Quando falo com investidores, infelizmente, Portugal nunca surge no topo das minhas recomendações para investir ou iniciar negócio.
A minha primeira conclusão é que se os Bancos portugueses não se adaptarem e analisarem, realmente, como produzir valor e colocar os clientes como foco principal da sua estratégia correm sérios riscos com os bancos digitais, assim que os bancos digitais conseguirem alocar capital para financiamentos de longo prazo os bancos portugueses vão ter sérios problemas na retenção de clientes, a curto prazo as contas bancárias irão ser substítuidas por wallets digitais e os Bancos, tais como os conhecemos, serão dispensáveis, especialmente com serviços burocráticos e caros.
Existem outras áreas de procupação como por exemplo bancos internacionais que criam hubs de operações em Portugal dada a qualificação dos nossos licenciados, o facto de se falar em inglês de uma forma, mais ou menos geral, e sobretudo os baixos salários e outros benefícios geralmente garantidos nos países de origem. Esta é uma situação díficil de contrariar mas antes de bancos internacionais garantirem as necessárias licenças deveriamos garantir condições mínimas para os colaboradores alinhadas com o mercado e garantir uma produção de valor para Portugal.
Outra nota de relevo são as empresas de crédito fácil com evidentes prejuízos para os clientes finais geralmente com taxas de juro muito altas, que se aproveitam da vulnerabilidade de muitas pessoas que necessitam de dinheiro rápido (lá está), esta abordagem destas entidades, dada a pouca literacia financeira em Portugal, cria muitos problemas nas famílias, definitivamente deveria haver uma maior preocupação dos nossos governantes para fazer face a esta falta de literacia financeira, na generalidade, da população. Este tema cruza com a introdução e de como, ainda existe muita dificuldade em gerir dinheiro e em perceber que termos dinheiro rápido é apenas adiar e comprometer a saúde financeira a curto e médio prazo.
Entretanto, nas redes sociais, o dinheiro surge disfarçado e muitas vezes vindo destes actores que promovem o dinheiro fácil. Não se fala dele, mas mostra-se o seu reflexo: viagens, restaurantes, relógios ou carros. É um palco de abundância cuidadosamente encenada, onde ninguém fala de rendimentos, apenas de consumo muitas vezes desmesurado. É o tabu reinventado: ninguém admite quanto gasta, mas todos competem por parecer que gastam muito.
Esta contradição diz muito sobre a nossa relação com o dinheiro. É um jogo de disfarces que esconde a verdade essencial: o dinheiro estrutura a vida das pessoas, define oportunidades e condiciona o futuro. Fingir que ele não existe é negar uma parte fundamental da realidade social, daí os Bancos seram tão importantes.
O tabu de falar de dinheiro tem ainda outro efeito pernicioso: impede-nos de aprender a geri-lo. Muitos portugueses crescem sem educação financeira básica, e a vergonha de “não perceber do assunto” mantém o círculo vicioso da desinformação. O resultado é visível nas estatísticas: endividamento elevado, baixa poupança e pouca literacia económica.
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Por João Camarão
