Durante décadas, Portugal olhou para a emigração como uma perda. Talvez esteja na altura de começar a vê-la como uma vantagem e atualizar essa narrativa.

Hoje, os portugueses espalhados pelo mundo já não são apenas emigrantes, tenho testemunhado essa realidade de perto ao longo dos anos, em contacto com muitos profissionais portugueses espalhados pelo mundo. São gestores, empreendedores, investigadores, engenheiros, médicos, investidores e administradores de empresas.

Lideram equipas internacionais, gerem projetos multimilionários e ocupam posições de influência em alguns dos mercados mais competitivos do mundo como é o caso do Golfo onde me encontro.

Segundo estimativas recentes, mais de dois milhões de portugueses vivem fora do país. Trata-se de uma das maiores diásporas da Europa em proporção da população nacional. Apesar da sua dimensão e relevância económica, muitos membros da diáspora continuam a sentir que a sua voz tem pouca expressão na definição das prioridades nacionais.

Apesar disso, Portugal continua a olhar para a diáspora de uma forma emocional. Celebramos as comunidades portuguesas quando há festas populares, futebol, visitas oficiais ou campanhas eleitorais mas pouco mais. Falamos da importância de manter as raízes. Mas raramente falamos da diáspora como aquilo que ela verdadeiramente é: um ativo estratégico nacional.

Enquanto muitos países competem ferozmente para atrair talento, Portugal possui uma rede global de talento já formada, já qualificada e já integrada em mercados internacionais. Uma rede que compreende a cultura portuguesa, fala a língua, mantém uma ligação afetiva ao país e continua largamente subaproveitada.

A questão é simples: estamos a aproveitar esse potencial? A resposta, infelizmente, parece ser negativa.

Quantos portugueses que ocupam cargos de topo em empresas internacionais são regularmente envolvidos em iniciativas económicas nacionais? Quantos são consultados quando se discutem estratégias para atrair investimento estrangeiro? Quantos são convidados a participar na definição das políticas públicas relacionadas com inovação, competitividade ou internacionalização?

Creio que Portugal ganharia bastante em ter a participação de quadros muito qualificados na definição de políticas nacionais com vista ao progresso do País.

A realidade é que muitos dos profissionais portugueses no estrangeiro mantêm uma forte ligação emocional ao país, mas sentem que essa ligação raramente é aproveitada de forma estruturada, eu tenho testemunhado isso de perto e de certa forma também se pode aplicar a mim.

E isso representa uma oportunidade perdida.

Num mundo cada vez mais global, as redes de contacto são tão importantes quanto os recursos financeiros. Um português em Londres, Dubai, Singapura ou Nova Iorque pode abrir portas que nenhuma campanha institucional consegue abrir. Pode facilitar investimentos, identificar oportunidades de negócio, promover empresas portuguesas e ajudar a projetar a imagem do país além-fronteiras.

O mais interessante é que esta colaboração não exige necessariamente o regresso físico.

Durante décadas, o debate sobre a diáspora centrou-se numa pergunta: como fazer regressar os portugueses?

Talvez estejamos a fazer a pergunta errada. Talvez a questão não seja como fazê-los regressar, mas como envolvê-los.

A tecnologia eliminou muitas das barreiras geográficas que existiam no passado. Hoje é possível contribuir para o desenvolvimento de Portugal a partir de qualquer lugar do mundo. O conhecimento, a experiência e as oportunidades viajam à velocidade de uma chamada de vídeo.

Como já partilhado em crónicas anteriores, Portugal enfrenta desafios sérios. Uma população envelhecida. Baixa produtividade. Dificuldades em reter talento. Necessidade de atrair investimento e acelerar a inovação.

Perante estes desafios, parece estranho que um dos maiores recursos do país continue relativamente subaproveitado.

Os portugueses no estrangeiro não são apenas uma extensão de Portugal. São uma parte integrante do seu futuro.

Chegou o momento de deixar de olhar para a diáspora apenas com orgulho e começar a olhá-la também com visão estratégica.

Porque, no século XXI, a força de um país não se mede apenas pelo que acontece dentro das suas fronteiras. Mede-se também pela capacidade de mobilizar os seus cidadãos onde quer que eles estejam.