A entrevista a Maria Celeste Hagatong, presidente da Fundação Jorge Álvares, traça um retrato rigoroso de uma instituição criada a poucos dias da transferência de soberania de Macau e que, ao longo de 25 anos, consolidou um papel central na preservação e difusão das relações históricas entre Portugal, Macau e a China. Com uma atuação contínua nas áreas cultural, educativa, científica e social, a Fundação afirma-se como um agente ativo da memória, da investigação e do diálogo entre comunidades, sustentada por uma gestão financeira estável e por uma estratégia de longo prazo.

Ao longo da entrevista, Maria Celeste Hagatong sublinha o investimento estrutural no Centro Científico e Cultural de Macau, a criação de acervos documentais únicos, o reforço da Biblioteca Fundação Jorge Álvares como referência no mundo lusófono e a aposta consistente na formação das novas gerações, através de projetos editoriais e plataformas digitais. A entrevista evidencia ainda os desafios futuros da Fundação, num contexto de incerteza dos mercados, e a prioridade dada à cooperação institucional, à valorização da cultura macaense e ao aprofundamento dos laços entre Portugal e o Oriente.

A Fundação Jorge Álvares foi criada em 1999 com o objetivo de promover a cooperação entre Portugal e Macau. Passados mais de 25 anos, como avalia o impacto da Fundação na manutenção e fortalecimento desses laços históricos?

A Fundação Jorge Álvares foi constituída no dia 14 de dezembro de 1999, por iniciativa do último Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira, ou seja, cinco dias antes da transferência do território de Macau para a Administração Chinesa. Ao longo destes 25 anos, a Fundação tem vindo a afirmar-se em múltiplas iniciativas no âmbito da sua missão, nomeadamente nas áreas cultural, educativa, científica, artística e social, promovendo igualmente ações de apoio às instituições que se dedicam ao estudo e divulgação de atividades e iniciativas ligadas à diáspora macaense, fomentando assim um melhor conhecimento da história de Macau e da sua realidade. Neste quarto de século da sua existência, a Fundação Jorge Álvares despendeu cerca de cinco milhões de euros nas atividades desenvolvidas em Portugal e em Macau. Neste período, a Fundação apoiou cerca de 23 exposições, 80 edições e 83 conferências, colóquios e congressos. Até 2022, a Fundação Jorge Álvares foi presidida por antigos Governadores de Macau e, por inerência, seus curadores, devendo-se especialmente a estes os resultados obtidos. O balanço que faço da atividade da Fundação nestes 25 anos apresenta-se bastante positivo, tendo presente a sua dimensão financeira e o facto de, desde o início deste século, terem ocorrido várias crises financeiras com forte impacto nos mercados e que comprometeram a rentabilidade dos ativos da Fundação. Todavia, a Fundação Jorge Álvares encerrou o seu 25.º aniversário com fundos patrimoniais praticamente idênticos aos que se verificavam aquando da sua constituição, o que demonstra a sua adequada gestão ao longo destes anos.

Existe um protocolo de cooperação assinado com a Fundação Casa de Macau e a Casa de Macau de Lisboa. Quais são os principais objetivos deste acordo e que iniciativas conjuntas estão previstas?

O Protocolo de Cooperação entre a Fundação Jorge Álvares, Fundação Casa de Macau e a Casa de Macau foi assinado em novembro de 2022 e teve em vista aproximar estas três instituições com missões diferentes, mas todas elas com o objetivo comum de promoverem e salvaguardarem a cultura macaense nas suas várias valências. Desde então, a Fundação Jorge Álvares tem partilhado as suas iniciativas com os Conselhos de Administração da Fundação Casa de Macau e da Casa de Macau, nomeadamente através da sua newsletter mensal, e tem convidado estas instituições a estarem presentes nas suas iniciativas e eventos. No caso da Casa de Macau, tem também incentivado a divulgação destas iniciativas junto dos seus associados. Paralelamente, a Fundação Jorge Álvares tem marcado presença nas atividades organizadas pela Casa de Macau, como os tradicionais chás gordos que se realizam ao longo do ano e as celebrações do Ano Novo Chinês. Reconhecemos, contudo, que ainda há um caminho a percorrer para aprofundar esta cooperação, e a Fundação Jorge Álvares não deixará de envidar todos os esforços nesse sentido.

A Fundação tem investido significativamente em projetos culturais e educativos. Pode destacar algumas das iniciativas mais emblemáticas que contribuíram para a promoção da cultura macaense em Portugal?

Como exemplos da atividade de apoio cultural e educativo, gostaria de salientar as iniciativas realizadas no Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), ao longo dos últimos três anos, integralmente financiadas pela Fundação Jorge Álvares. Em 19 de dezembro de 2022, concretizou-se a instalação definitiva da Biblioteca e do acervo documental no edifício do CCCM, passando esta, por esse motivo, a designar-se formalmente “Biblioteca Fundação Jorge Álvares”. Este acervo constitui o mais relevante conjunto documental existente em Portugal sobre as relações entre Portugal e a China, essencial para todos aqueles que estudam estas matérias. Em 19 de dezembro de 2023, foi concretizado e apresentado o Fundo Documental dos Governadores de Macau. Este fundo integra já, entre outra documentação, os arquivos pessoais do General Vasco Rocha Vieira, último Governador de Macau (1991–1999), do General Garcia Leandro, primeiro Governador nomeado após o 25 de Abril de 1974, do General Nobre de Carvalho, Governador entre 1966 e 1974. O Fundo Documental dos Governadores permanece aberto à receção de novos contributos de familiares de antigos governadores, reforçando assim o seu valor como repositório único para investigadores interessados nas relações entre Portugal, Macau e a China. Em 19 de dezembro de 2024, foi inaugurada e aberta ao público a Galeria dos Governadores de Macau, uma nova área expositiva permanente do Museu do CCCM, na qual estão expostos os retratos dos Governadores que se encontravam anteriormente na Sala dos Retratos do Palácio da Praia Grande, em Macau. A visita a esta Galeria constitui um percurso guiado pela história de Macau, desde meados do século XIX até ao final do século XX. O investigador Alfredo Gomes Dias deu um contributo inestimável na organização museológica da exposição. Gostaria de destacar igualmente os livros da autoria das conhecidas escritoras Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, dedicados a um público infantojuvenil, editados pela Fundação Jorge Álvares, sobre aspetos da história das relações entre Portugal e a China e sobre portugueses ilustres que estiveram no Oriente. Todos estes livros foram distribuídos gratuitamente por cerca 1500 bibliotecas escolares e colégios particulares de Portugal, pelas escolas portuguesas de Macau e ainda por outras entidades. Têm sido promovidas diversas sessões de apresentação destes livros em escolas, com a presença das autoras, bem como concursos de leitura baseados nas obras, o que constitui, sem dúvida, um incentivo importante para a continuação deste projeto. Estes livros estão também disponíveis em versão digital na Biblioteca Digital da Fundação Jorge Álvares, podendo ser descarregados gratuitamente através do seu site. Não posso deixar de referir que a Biblioteca Digital da Fundação, lançada há vários anos, é uma plataforma digital que, para além dos referidos livros infantojuvenis, permite o acesso a conteúdos multimédia educativos sobre a história, tradições e cultura de Macau e da China, adaptados a diferentes níveis de ensino e maioritariamente baseados em manuais da Escola Portuguesa de Macau. As visualizações desta biblioteca, a partir de Portugal e de vários países com comunidades portuguesas e macaenses, confirmam a sua relevância e incentivam o desenvolvimento contínuo do projeto. A Fundação Jorge Álvares está a promover este ano a modernização desta plataforma de modo a ganhar uma maior interatividade e novas funcionalidades. Destaco ainda que, todos os anos, a Fundação Jorge Álvares patrocina várias publicações sobre temas que se enquadram na sua missão. No último ano, no âmbito das comemorações do centenário da primeira travessia área Portugal-Macau a Fundação apoiou a obra “O Sonho de Voar” da autoria de Joaquim Falcão Lima e também a edição do livro infantil sobre o mesmo tema da autoria de Filipa de Brito Pais “A Aventurosa Viagem do Pátria”, com ilustrações de Leonor Almeida, cuja tradução para chinês foi igualmente apoiada pela Fundação já este ano. Relativamente aos anos anteriores, a FJA tem vindo a apoiar publicações semelhantes no âmbito dos seus objetivos estatutários. Em associação com a Câmara Municipal de Mafra, o Instituto de Etnomusicologia da Universidade Nova de Lisboa e a European Foundation for Chinese Music Research (CHIME), a Fundação Jorge Álvares é a principal patrocinadora das Conferências Internacionais e Conferências de Lisboa de Música Chinesa e Instrumentos Musicais Chineses, que se têm realizado entre Lisboa e Mafra. Estas conferências reúnem investigadores das áreas da etnomusicologia e da história, oriundos de mais de uma dezena de países. Não é raro, nestas conferências, serem abordados temas sobre a relação da música oriental com a música ocidental, onde Macau desempenha um papel importante. Este ano, a Conferência de Lisboa sobre Música e Instrumentos Musicais Chineses teve lugar entre 7 e 10 de maio e contou com a sua VIII edição. Não posso também deixar de referir a coleção de arte da Fundação Jorge Álvares, adquirida durante a presidência do Eng.º Carlos Melancia, e que se encontra depositada e exposta no Museu do Centro Científico e Cultural de Macau, a qual integra a famosa garrafa dita de Jorge Álvares, que data do séc. XVI. Por último, refiro também que, todos os anos, são atribuídos pela Fundação Jorge Álvares prémios aos melhores alunos da Escola Portuguesa de Macau, bem como prémios e uma bolsa de estudos a alunos da Universidade de Macau.

A inauguração da Biblioteca Fundação Jorge Álvares no Centro Científico e Cultural de Macau foi um marco importante. Qual é a importância desta biblioteca para a investigação e preservação da história de Macau?

A Biblioteca do CCCM, dado o apoio financeiro que a Fundação atribuiu para a sua instalação definitiva num edifício daquele Centro, passou a denominar-se “Biblioteca Fundação Jorge Álvares”. Esta Biblioteca é uma das mais importantes bibliotecas especializadas de investigação e ensino acerca da China/Macau, da Ásia Oriental e das relações entre a Europa e a Ásia. Destina-se em especial ao público do Ensino Superior, a estudantes e professores universitários e de institutos politécnicos, e ainda a investigadores nacionais e estrangeiros que se debruçam sobre estas matérias. É a mais completa e atualizada Biblioteca sobre a China no Mundo Lusófono. A sua importância para a investigação e preservação da história de Macau é indiscutível. A Biblioteca concentra um valioso conjunto de documentos históricos, incluindo uma vasta coleção sobre a presença portuguesa na Ásia, essencial para o estudo da história e da cultura de Macau ao longo dos séculos. Com mais de 27 mil registos bibliográficos e uma coleção superior a 100.000 documentos, abrange diversos aspetos da história, arte, literatura, religião e ciência, desde o século XVII até aos dias atuais. Além das obras impressas, a Biblioteca detém uma coleção única de 6.500 microfilmes, que reproduzem arquivos importantes de Macau, como os do Leal Senado, da Santa Casa da Misericórdia e da Administração Civil, entre outros. Estes arquivos são fundamentais para o estudo da administração e sociedade macaenses, permitindo um maior e melhor conhecimento sobre o desenvolvimento de Macau enquanto território de forte influência portuguesa na Ásia. A Biblioteca também preserva uma vasta coleção iconográfica, com cerca de 40 mil diapositivos e cinco mil fotografias em papel, além de 30 mil fotografias digitais, que documentam a evolução de Macau ao longo do tempo. Além dessas coleções institucionais e documentais, a Biblioteca Fundação Jorge Álvares também é notável pelos espólios particulares que conserva, como o espólio de Monsenhor Manuel Teixeira, figura de todos conhecida nas comunidades macaenses.

A Fundação Jorge Álvares tem apoiado o Centro Científico e Cultural de Macau em diversas iniciativas. Quais são os planos futuros para fortalecer esta parceria e ampliar o alcance das atividades do CCCM?

A Fundação Jorge Álvares ao longo destes 25 anos de atividade tem sido o principal mecenas do Centro Científico e Cultural de Macau apoiando uma série de iniciativas e projetos como aconteceu nos últimos três anos, os quais envolveram um apoio financeiro superior a mais de meio milhão de euros. Os projetos futuros a desenvolver entre estas duas entidades dependem da avaliação da Fundação das iniciativas que venham a ser propostas pelo CCCM, que sejam compatíveis com a sua missão e com a capacidade financeira da Fundação, sendo certo que a atividade da Fundação Jorge Álvares depende unicamente da rentabilidade da gestão do seu portfolio financeiro que está, por sua vez muito dependente da evolução dos mercados financeiros, o que nesta época está sujeito a muitas incertezas. Ler artigo completo