Nos últimos anos, a imigração deixou de ser um tema periférico em Portugal para se tornar central no debate público e político. Está nas ruas, nas empresas, nos serviços públicos e cada vez mais, nas preocupações dos portugueses.

Portugal enfrenta um desafio estrutural difícil de ignorar: o envelhecimento da população e a escassez de mão de obra em diversas actividades fundamentais para a economia.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, a população ativa tem vindo a diminuir e a pressão sobre o sistema de segurança social tende a aumentar nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, vários setores, da construção à restauração, da agricultura à tecnologia enfrentam dificuldades reais em recrutar.

Por outro lado e de acordo com as mesmas fontes o crescimento populacional recente só tem sido positivo devido à imigração, com um saldo natural negativo compensado por entradas de estrangeiros.

Mas mais do que isso, a imigração já representa cerca de um terço dos nascimentos em Portugal o que reforça que a médio prazo Portugal vai enfrentar problemas graves o que levanta desafios relevantes para o futuro do país.

Os números mais recentes mostram a escala da transformação:

  • Em 2024, Portugal tinha cerca de 1,5 a 1,6 milhões de cidadãos estrangeiros
  • Esse número quase quadruplicou desde 2017
  • Em apenas três anos, o número de estrangeiros duplicou
  • Hoje, cerca de 14% a 16% da população residente não tem nacionalidade portuguesa

Isto não é uma tendência marginal, é uma mudança estrutural na composição do país e isso deve merecer reflexão séria.

Neste contexto, a imigração não é apenas uma opção política, é uma necessidade económica. Portugal optou, nos últimos anos, por uma política relativamente aberta à imigração.

Essa decisão, em si, pode ser compreensível e até estratégica mas o resultado é um sistema que recebe mais pessoas do que consegue integrar com qualidade.

E quando isso acontece, todos perdem, os imigrantes, que enfrentam precariedade, os portugueses, que sentem pressão sobre serviços e salários, o próprio país, que transforma uma oportunidade num risco.

A imigração pode ser um motor de crescimento. Mas só funciona quando existe confiança entre quem chega e quem já cá está, essa confiança constrói-se com regras claras, previsibilidade e capacidade de execução.

Quando um trabalhador estrangeiro espera meses por documentação, ou quando empresas recorrem a soluções informais para colmatar falhas do sistema, o que está a falhar não é a imigração mas a estratégia e a governação.

Reduzir o debate da imigração a números, quantos entram, quantos trabalham, quanto contribuem, é insuficiente, a integração é também social e cultural e sem políticas adequadas de habitação ou acesso a serviços, por exemplo, o risco não é apenas económico mas social e esse risco tende a crescer em silêncio, até deixar de ser invisível.

O debate público muitas vezes cai numa simplificação perigosa, ou se é a favor da imigração, ou se é contra, mas essa não é a questão certa, a questão certa é como garantir que a imigração funciona para o país como um todo, Portugal não precisa de escolher entre abertura e controlo. Precisa de combinar ambos.

A história mostra que países que souberam integrar imigração de forma eficaz tornaram-se mais dinâmicos, mais inovadores e mais resilientes.

Portugal tem condições únicas como qualidade de vida ou experiência histórica de emigração, mas ter potencial não chega. Sem estratégia, a imigração deixa de ser uma vantagem competitiva e passa a ser uma fonte de tensão.

Ao longo de mais de 14 anos a trabalhar fora de Portugal, em diferentes geografias e contextos económicos, habituei-me a olhar para os países também através da forma como gerem duas coisas essenciais: o risco e as pessoas e a imigração cruza ambas.

Nesses contextos, há uma diferença clara, a imigração não é apenas permitida, é planeada e existem mecanismos mais rápidos de integração, há maior articulação entre empresas e Estado e, sobretudo, existe uma preocupação real com a capacidade de absorção.

Essa preparação exige regras claras para acolher os imigrantes e diligências diria até, demasiadamente burocráticas particularmente para pessoas que irão desempenhar cargos de maior responsabilidade.

Portugal não fez o mais importante, preparar-se.

Portugal precisa de imigração, mas precisa ainda mais de capacidade para a gerir. Num país marcado durante décadas pela emigração, talvez valha a pena recordar uma ideia simples. Quem chega hoje procura, no essencial, o mesmo que os portugueses procuraram lá fora, oportunidade, estabilidade e dignidade cabe-nos a nós decidir se estamos preparados para oferecer isso.

Ao longo da minha carreira, vi economias crescerem quando conseguem alinhar talento, capital e pessoas. E vi também o contrário quando boas intenções falham por falta de execução.

Portugal não tem um problema de imigração. Tem um problema de capacidade para a gerir, e enquanto continuar a reagir em vez de planear, o que hoje é um desafio vai tornar-se inevitavelmente um problema.

Portugal não está a gerir a imigração. Está a reagir a ela